quarta-feira, 11 de maio de 2016

Espaço Público e Espaço Privado

Espaço Público e Espaço Privado
O ser humano é um ser valorativo, e,  portanto valora suas convivências sociais e valora os espaços onde realiza essas valorações.
Os espaços, geralmente, possuem especificações determinadas, embora as mesmas possam variar de acordo com o uso que se faz dele (casa-festa/shopping/escola), e outros sempre mudam de especificação a partir do uso. Assim, o determinante para o espaço ser público ou privado é o uso que se faz dele (P.V.L. => bicicleta e quadra de basquete)
A ocupação do solo urbano atende apenas ao interesse do capital privado. Os melhores e maiores espaços (arquitetura ) pertencem há uma pequena e mesma classe de pessoas. Na sociedade atual, o capitalismo absorve quase todo o espaço e o repensa em função da utilidade econômica. Quase toda a cidade, urbana, mostra sua estruturação a partir dos locais de trabalho e consumo (comércio e lazer).
Espaços de morte (cemitérios): Público e Privado
As classes sociais têm interesses e necessidades diferentes, o que determina diferentes formas de apropriação de um espaço coletivo enquanto espaço público. Um mesmo espaço tem diferentes significados determinados pela cultura social e econômica daquele que se utiliza dele (praça, JK, escola).
Sociologia Urbana
A sociologia urbana trata especificamente das relações sociais estabelecidas no espaço urbano, analisando as implicações de convivências no mesmo, pensando as inclusões e exclusões que acontecem e quais suas motivações objetivas e econômicas.
Esse pensamento sociológico surge na Escola de Chicago no fim do século XIX, onde utiliza a sociologia para fazer uma antropologia urbana, em que o outro (o problema da alteridade) torna-se o próximo. Desencadeia-se a partir desse pensar, estudos relacionados a divisão espacial, surgimento da oposição entre ricos e pobres, surgimento das favelas, proliferação do crime e da violência (geograficamente determinados), moradores de rua, excluídos em geral, preconceitos urbanos, o aumento populacional e outros.
O urbano deve ser compreendido como espaço socialmente produzido, de acordo com os vários modos de organização socioeconômica e de controle politico em que está inserido, sendo essencial compreender as relações de produção, consumo, trocas e de poder que se manifestam no ambiente urbano.
Condições determinantes do urbano =>  economia, tecnologia, mídia, religião, produção.
Uma questão central estudada na estrutura da sociedade urbana é o “estado do bem estar social”, que ressalta a dupla exploração sofrida pelas classes populares (econômica e espacial). A questão da “Dual City”=> espaço dos ricos e dos pobres. E o surgimento dos movimentos sociais urbanos (minorias) a partir dessa questão (MST, LGBTS, Movimento Feminista, Movimento Negro)

Violência simbólica=> os espaços são consagradores ou agressores de acordo com a bagagem sócio cultural daqueles que dele participam.  Os ambientes são valorados por quem os constrói  e os utiliza, e assim os espaços acabam adquirindo valores a partir desses. Como já vimos, os espaços são equacionados a partir de interesses econômicos e esses interesses econômicos correspondem a classes especificas, adquirindo assim, indiretamente, valores excludentes daqueles que não pertencem a classe especifica e seus subsequentes valores moldadores do espaço em questão. 

Consumo e Consumismo

Consumo e Felicidade
“A terra pode oferecer o suficiente para satisfazer as necessidades de todos os homens, mas não a ganancia de todos os homens.” (M. Gandhi)
“Não há drama no fato de alguém não poder comprar marcas e luxo; o drama é a vida não ter outro ideal senão o consumo.” (Giles Lipovestsky)
Consumo e Consumismo
Consumir, possuir, obter, acumular são verbos possessivos de uma significância e importância social que condicionam nossa vivência e existência. Consumo e consumismo são termos paralelos de significados excludentes. Consumir é uma necessidade humana e consumismo é prioridade exacerbada que se dá a consumir o que não é essencial. Consumismo é uma forma alienada e inconsciente de fazer do paradigma do mercado (ter mais e mais) a posição mais alta da hierarquia de valores humanos.
O consumismo é considerado uma patologia por ter implicações emocionais, psicológicas relacionadas à baixa autoestima e problemas de relacionamentos humanos e afetivos. Ele revela na sociedade contemporânea, consequências mentais de alienação, exploração, econômica, problemas ambientais, impactos culturais, manipulação comportamental e aumento das desigualdades sociais.
O filósofo Giles Lipovestisky, em seu livro A Sociedade da Decepção, analisa a espiral da frustração humana, a maneira sistemática como o homem/mulher (humanidade) forja para si em parâmetros sociais e globais (sobrepujados pelo econômico) conceitos de vida feliz não alcançável. A fórmula encontrada pelo filósofo para caracterizar o hipermoderno é simples e eficaz: o mais e menos ao mesmo tempo. Nunca se buscou tanto a magreza e nunca se teve tantos obesos[1].   Convivemos continuamente com a desagradável sensação de desconforto público gerada pela sensação e percepção que o outro tem o que não podemos. E a questão central nessa sociedade da decepção é que o aumento de consumo não propicia aumento da felicidade, basta olhar os altos índices de suicídio em países com os mais altos padrões/qualidade de vida.
A população mundial demorou dezenas de anos para atingir 1 bilhão de habitantes (1800) e em 200 anos atingiu a cifra de 7 bilhões. Os adventos históricos Iluminismo/Revolução Industrial/Capitalismo/Globalização alavancou e globalizou a desigualdade e por isso é que há cada vez maiores diferenças entre os países ricos e pobres (Neoliberalismo - pró e contra).
Um conceito premente na sociedade moderna é o da qualidade de vida que condiciona ser mais feliz e gozar de maior qualidade de vida como sendo pleonasmo. Embutido a ideia de qualidade de vida está a ideia de dinheiro como felicidade, e defendemos uma nos jogando nos braços da outra fugindo de uma e buscando a outra, contudo ambas tem os mesmos efeitos.
Felicidade: Uma perspectiva sociológica
A felicidade e seus conceitos derivativos estão localizados hoje, como foram antes em todas as outras sociedades históricas, no tempo e no espaço. Pensar em ser feliz e estar bem em São Paulo seria diferente de ser feliz em Campinas, São Carlos e etc. contudo, houve uma padronização conceitual de valores e culturas no que diz respeito a definição da boa vida, medida as proporções, tanto em São Paulo, como em Tóquio ou Nova Iorque. O homem/mulher contemporâneo é humano virtual, conceitual e líquido. Assim, o ser feliz esta condicionado a moldes já estruturados e definidos a priori de si, da própria consciência e do próprio desejo. É preciso consciência e muita força de vontade para não sucumbir ao uso desenfreado das novas tecnologias (celular, principalmente) sem deixar que as mesmas ditem os padrões de modelos de nossa existência. Seria o mesmo para a insistente busca do corpo perfeito. Esbelto, silhueta contornada e quadris salientes como padrão de beleza da cultura industrializada (globalizada). Como diz Lipovetsky: cada um pode fazer o que bem entender e ser o que bem quiser, mas é quase impossível encontrar uma mulher que queira ser gorda. A sociedade hipermoderna cria novas imposições e cobra novas posturas. A liberdade (social) pode ter um preço muito alto: a frustração.
O futuro da sociedade de consumo é incerto, o que sabemos é que ela uma etapa histórica como tantas outras. A questão é o que sobrará de mundo e quem será o homem após ela. Não há recursos ambientais, econômicos, industriais, espaciais, sociais e humanos para realizar a felicidade propagada como necessária ou boa para todos. Assim, numa perspectiva social precisamos perceber que a felicidade é discurso construído historicamente e socialmente (global), e que ter consciência dessa construção já nos possibilita pensar a mesma para se ajustar, negar ou até mesmo reformular em pró de um discurso mais condizente com um eu existente em uma sociedade orgástica.




[1] Gilles Lipovetsky. A Sociedade da Decepção.

domingo, 1 de maio de 2016

Desigualdades Sociais

Desigualdades Sociais

A sociologia existe para investigar, analisar e responder a temas referentes à vivência do homem em sociedade. Focando sempre no porque as coisas são e estão como estão. Para assim, compreender e explicar as vivências sociais e o porquê das mesmas serem como são. Nossa proposta é pensar no porque a vivência social de pessoas iguais é tão radicalmente afetada por desigualdades
Podemos pensar a desigualdade social como sendo uma desigual distribuição de Poder Econômico, Poder Social, Poder Cultural, Poder Político, Poder Étnico e outros.  O que é preciso enfatizar aqui é que nunca houve na história humana sociedades igualitárias, onde todos eram considerados de igual valor e tendo os mesmos direitos e condições existenciais. No Brasil, por exemplo, temos desigualdades referentes a gênero, raça, idade e a posse/bens. 
“Num país um com 190 milhões de habitantes, um terço da população dispõe de condições de vida e vida comparáveis às de um país europeu. Outro terço, no entanto, se situa num nível extremamente modesto, comparável aos mais pobres padrões afro-asiáticos. O terço intermediário se aproxima mais do inferior que do superior”. Orson Camargo.
Inúmeros dados e estudos apontam que a desigualdade social e econômica cresce em todo o mundo. Dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) revelam que 1% dos mais ricos detêm 40% dos bens globais. Um relatório da ONG Oxfam demonstra também que as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem uma renda equivalente as 3,5 bilhões de pessoas mais pobres.
Se refletirmos sobre o tema a partir de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), veremos que para ele a desigualdade é um fenômeno que tende a sempre se intensificar no contexto social. As famílias mais pobres possuem um menor acesso à instrução e às informações necessárias para alavancar um desenvolvimento próprio, enquanto os grupos mais ricos possuem um maior nível estrutural para investirem e multiplicarem sua renda e os largos benefícios advindos dela. Para Rousseau, o que causa a desigualdade é exatamente a divisão social do trabalho. com a criação da propriedade e dos bens particulares e não distribuíveis. Muito alinhado a essa ideia temos Karl Marx (1818-1883). Ele enxergava a sociedade a partir da luta de classes e via a desigualdade manifestada a partir dos desequilíbrios entre a burguesia e os trabalhadores, a primeira era a detentora dos meios de produção, controlando e retendo a maior parte dos lucros sobre os bens produzidos. Essa lógica, perpetuada pela mais-valia, concentrava a renda (burgueses) e marginalizava os cidadãos (proletários), além de criar um exército de desempregados, que forçava uma concorrência entre os próprios trabalhadores, privando-os de sua emancipação.
O que temos então é que a desigualdade social é historicamente construída. Agora é preciso pensar que o conceito de igualdade entre os homens é correlato ao surgimento do cristianismo e que no século XVIII as teorias igualitárias e humanista (Revolução Francesa) são também decorrências. Com o processo Iluminismo/Revolução Industrial/Capitalismo/Globalização se estabeleceu uma sociedade de competição (competência), que significa sociedade de vencedores e perdedores.
Nessa sociedade capitalista temos o surgimento do pobre e do excluído, em outras sociedades isso não era problema, não havia esses modelos de classificação/categorização. O olhar era outro, eram sociedades sólidas e definidas. Agora, fundada essa sociedade capitalista e competitiva, sociedade dos competentes em oposição aos incompetentes, a pobreza na mesma tem origem  histórica e tendências  estruturais. A pobreza é entendida como o despossuimento do mínimo necessário para o bem viver e isso gera em contrapartida ou em consequência a exclusão que é estar sem acesso a uma adequada preparação para competir.

Assim, temos que refletir sobre as desigualdades sociais (na sociedade) e ao mesmo tempo compreender as origens histórico-sociais da mesma, e juntamente a isso nos possibilitar uma análise social da nossa condição na mesma, e talvez refletir como mudar ou melhorar a vivência nela, que significa a superação da pobreza pela inclusão dos excluídos da mesma. 

Cultura e Etnocentrismo

Cultura e Etnocentrismo
Cultura => é tudo aquilo que é cultuado, cultivado, no individuo socialmente
Cultura para a sociologia: é o conjunto de hábitos, normas, preferencias, linguagens, ritos, artesanatos, símbolos, produção artística, manifestação religiosa e outros. A cultura de um determinado povo (indígena, africano, baiano), portanto, não é inferior ou superior (EUA), a nossa, mas simplesmente diferente.
Ao desenvolver cultura e ao ter cultura desenvolvida em si, o homem o faz por meio de Signos e Símbolos. A capacidade de simbolizar desenvolveu-se diante da necessidade ou vontade, especificamente humana de interpretar  o mundo, atribuindo-lhe sentidos que, aparentemente, ele não possui. O homem/mulher ao simbolizar o mundo/sociedade em que vive, o faz por meios de signos. Exemplos: a linguagem, a palavra, as letras, esculturas, signos e símbolos religiosos.
Cultura é o complexo conjunto de símbolos construídos por um povo em um determinado tempo e espaço, graças, a enorme capacidade de simbolizar as culturas são múltiplas e diversas. A cultura, também, condiciona a visão (modo de olhar) do homem/mulher: a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo.
O fato de o homem/mulher ver o mundo através de sua cultura (lente cultural – visão culturalizada) tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e mais natural. Tal dependência e pratica denominamos de Etnocentrismo, e é ele, o responsável nos casos mais extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais, principalmente religiosos.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Uma Ética Complexa

Uma Ética Complexa
Por Edgar Morin
(...) Eis, portanto, uma sem outro fundamento senão ela mesma, mas que precisa de apoios exteriores a ela mesma: precisa se alimentar de uma fé, apoiar-se em uma antropologia e conhecer condições e situações em que é praticada. É uma ética da compreensão. É uma ética que não impõe uma visão maniqueísta do mundo. É uma ética sem salvação, sem promessa. É uma ética da comunidade de perdição. É uma ética que encontra em seu seio sempre a incerteza e a contradição. É uma ética do desafio. É uma ética que nos reclama exigência conosco e indulgência com o outro, e não o inverso.
Na auto ética, a consciência moral necessita, por um lado, de uma fé ou de uma mística que a inspirem, por outro, o exercício permanente de uma consciência esclarecedora. A moral é uma iluminação que precisa ser iluminada pela inteligência, e  a inteligência é uma iluminação que precisa ser iluminada pela moral. Dai o sentido da frase da frase de Pascal, “trabalhar para bem pensar, eis o principio da mora”. A ética deve mobilizar a inteligência para enfrentar a complexidade da vida, do mundo e da própria ética.

Assim, não é uma norma arrogante nem um evangelho melodioso o que anuncia a auto ética que faço minha: é o enfrentamento da dificuldade de pensar e viver. O sentido que lhe darei, finalmente, se for preciso um termo que possa englobar todos os seus aspectos, é a resistência à crueldade do mundo.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A Ideologia


Por Marilena Chauí – O Convite a Filosofia

A alienação se exprime numa “teoria” do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida. Um exemplo desse senso comum aparece no caso da “explicação” da pobreza, em que o pobre é pobre por sua própria culpa (preguiça, ignorância) ou por vontade divina ou por inferioridade natural. Esse senso comum social, na verdade, é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais da sociedade – sacerdotes, filósofos, cientistas, professores, escritores, jornalistas, artistas -, que descrevem e explicam o mundo a partir do ponto de vista da classe a que pertencem e que é a classe dominante de uma sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as ideias de uma das classes sociais – a dominante e dirigente – tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade. A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dar-lhes a aparência de indivisão e de diferenças naturais entre os seres humanos. Indivisão: apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos todos iguais porque participamos da ideia de “humanidade”, ou da ideia de “nação” e “pátria”, ou da ideia de “raça”, etc. Diferenças naturais: somos levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos talentos e das capacidades, da inteligência, da força de vontade maior ou menor, etc. A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as ideias.
 A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem pretender transformá-las ou conhecê-las realmente, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as ideias. Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos cidadãos e, portanto, temos todos os mesmos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. No entanto, sabemos que isso não acontece de fato: as crianças de ruas não tem direitos; os idosos não tem direito; os direitos culturais das crianças nas escolas publicas é inferior aos das crianças que estão em escolas particulares, pois o ensino não é de mesma qualidade em ambas; os negros e índios são discriminados como inferiores; os homossexuais são perseguidos como pervertidos etc. A maioria, porém, acredita que o fato de ser eleitor, pagar as dividas e contribuir com os impostos já nos faz cidadãos, sem considerar as condições concretas que fazem alguns serem mais cidadãos do que outros. A função da ideologia é impedir nos de pensar nessas coisas. (CHAUÍ, 2011, p. 176). 

terça-feira, 15 de março de 2016

Conscientização da alienação

A consciência é uma formação performática de conjunturas de ideias interligadas pela consciência não consciente de si, mas que faz a transmutação entre o real percebido e a consciência que percebe para transformar a mesma num todo conjuntivo e coerente de percepção/compreensão do mundo e da realidade que se apresenta no mundo num dado momento. Assim, nesse processo ininterrupto de formação do eu, sempre conjugado no tu e eles, formamos consciências que não se percebem como consciência, consciências que não sabem saber dos encadeamentos formadores de si mesmas. Consciências que são formadas sem consciência de sua formação e até mesmo sem consciência de sua existência como consciência. É nesse plano que alienados de si mesmos, os indivíduos ficam a mercê de consciências formadoras de consciências, estas supostamente superiores ou detentoras do saber ou da melhor vida, e entregam a outros a gênese de si mesmos. O que significa que dá há outro que não o conhece, não o viu ou que nem sequer sabem de sua existência, o direito e o poder de decidir para si como será seu próprio viver. A todo esse bloco de formação do pensar e do existir Karl Marx vai intitular de ideologia dominante e alienação do dominado.
Não poderíamos dar partida a nossa reflexão por outra via. A consciência social formada segundo a condição material daquele que a adquire, o inscreve em uma realidade dada que o condiciona a ideologias norteadoras do seu agir e pensar, e que ao mesmo tempo lhe rouba a consciência/capacidade de perceber que ela assim o faz. Em outros termos, naturaliza sua condição existencial como sendo a única que poderia ser e ao mesmo torna essa condição positiva acrescentando a ela outras ideologias estruturadoras da sua própria existência, algo como galgar uma elevação social ou uma utópica guinada material.
Ora, Marx está aqui propondo que a sociedade capitalista é construtora de uma estrutura delimitante da condição existencial de todos aqueles que não participam da construção das condições sociais de convivência e que ao mesmo tempo os impede do desfrute daquilo que é produzido nessa mesma sociedade, e que pasmem vocês, é necessariamente produzido por aqueles que estão excluídos da construção social de convivência. Assim, o que Marx quer propor não é a simples compreensão dessa estrutura para análises sociológico-filosófica, como ele mesmo diz:
“Os filósofos até agora se preocuparam em interpretar o mundo, mas o que importa é transformá-lo!”

A proposta é de uma práxis existencial, consciência e ação como uma interação de existência construtora de realidades niveladoras da condição de construção do pensar, agir e existir. Ao pensarmos as categorias e estruturas do pensamento marxista e sua análise das estruturas sociais que moldam e dominam/oprimem a cada um dos cidadãos. Poderíamos ir além do autor e perceber que até mesmo o opressor é um oprimido, visto que sua condição, geralmente alienada, o obriga a agir em consonância com sua própria situação existencial. E aqui fechamos o cerco da proposta desta reflexão, “pois a alienação é tanto mais eficaz quanto maior a alienação daqueles que produzem e reproduzem a mesma”, ou diria Marilena Chauí muito melhor do que eu: “O que faz da ideologia uma força quase impossível de ser destruída é o fato de que a dominação real é justamente aquilo que a ideologia tem por finalidade ocultar”. E nosso papel nesse arcabouço ideológico é perceber que o mesmo existe e a partir dessa percepção criar novas possibilidades reais e, sobretudo conscientes de que são construções utópicas e que assim devem ser trabalhadas em uma dialética com o real, para que no diálogo com o mesmo vá sendo remodelada/reestruturada, feita para atender aos anseios e necessidades do maior número possível. Parece que falamos aqui de uma ideologização as avessas. Marx não gostaria dessa reflexão certamente. E já que a proposta é de subversão marxista. Digo que: “Não podemos pensar em um modelo político ideal em oposição ao vigente, precisamos compreender o vigente, e conscientes (“sem” alienação) trabalhar para transformá-lo, buscando que o mesmo contribua para o melhor na e da sociedade, sem com isso causar a derrocada do mesmo, o que seria muito pior.