quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Sociologia da Religião

Sociologia da Religiã

A religião tem acompanhado o ser humano desde
os seus primórdios, servindo  como uma ponte
 de compreensão para diversos  fatos
supostamente incompreensíveis.
A gênese da modernidade ocidental situa-se nas transformações sociais ocorridas no século XVIII. Os marcos históricos da modernidade – o Iluminismo, Revolução Industrial, a Revolução Francesa – são essenciais para percebemos uma Nova Era que nascia sob o auspicio da racionalidade e da reflexividade. Com o advento da modernidade, o ser humano racional como seu ‘ator principal’ acontece, concomitantemente, ao declínio da religião. 
O ser humano como ser social formado socialmente, é composto por conjunturas de valores que são determinantes do seu pensar e do seu agir. Esses valores são construções humanas socialmente condicionadas e determinadas, que significa que são construídas no grupo, pelo grupo e para o grupo. Essas construções têm diversas referências sociais e históricas (religiosas e filosóficas), por isso, para melhor conhecer e compreender os seus porquês precisamos entender as bases, os alicerces estruturais dessas construções.
Ora, se nossas ações têm por base valores e referenciais éticos, é preciso então descobrirmos de onde surgem esses valores e referenciais. Na conjuntura valorativa ocidental, e em todas as outras, a religião e seus preceitos e conceitos (bem/mal, certo/errado, verdadeiro/falso) são constitutivas das organizações sociais e legais. Em outras palavras como diz Max Webber “é preciso conhecer a concepção global de existência de um agente para compreender suas atitudes”, ou ainda, “A religião associa-se ao corpo social não pelas instituições, mas pelos valores que o indivíduo carrega e transforma em motivações da sua ação social”.
A Sociologia visa mostrar a contribuição da religião para a Coesão Social e para a Integração de Valores, pois a religião, e todos os seus valores, afeta a sociedade que a abriga não apenas externamente, mas fundamentalmente internamente, pois à medida que apreendidos, apropriados e internalizados pelos indivíduos, participam ativamente do arcabouço estrutural do individuo.
Um exemplo dessas referências está em sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, em que ele apresenta como o ethos (costumes e os traços comportamentais de um povo) religioso puritano contribuiu para com o avanço do capitalismo.
“Não se trabalha simplesmente para se acumular capital, pois seria uma motivação insuficiente. Trabalha-se porque o trabalho é bom, portanto um valor em si mesmo. Analisa-se como a vocação, a virtude e a ascese do protestante contribuíram para que ocorresse o acúmulo de capital”.
 A Sociologia da Religião analisa esse mote de transformação sociocultural a partir da transformação do papel da religião na modernidade que vai inaugurar uma nova estrutura social calcada no desencantamento do mundo e na sua sequência, a secularização. Desencantamento do mundo corresponde a mudança de postura para com o mundo, um olhar sobre o mesmo com uma concepção antimágica e antirritualista, o que indiretamente apoia a investigação cientifica. O que em outras palavras significa que realidades que eram explicadas através das divindades (chuva, nascimento, doença, morte) agora serão explicadas pelo estudo e compreensão do mundo (construções racionais humanas e as leis naturais) e a subsequente racionalização da sociedade decorrida. Numa sociedade racionalizada, os indivíduos sentem-se livres para encontrar, de forma autônoma e refletida, o seu próprio universo de significações diante de um mundo fragmentado, visto que não há mais uma instituição (Deus, igreja) definidora do olhar com que se vai olhar a realidade e o mundo, não a partir do âmbito social, mas agora somente pessoal. Nessa analise da religião percebemos que o eu de cada um de nós está envolto em uma conjuntura valorativa que encontra o seu arcabouço em estruturas religiosas (renegadas ou não) que são encaminhadoras do pensar, sentir, gostar, rejeitar e/ou tantas outras significações que assimilamos socialmente em múltiplos processos de socialização e formação pessoal.


Engrenagem Social

Engrenagem Social (Émile Durkheim 1858-1917)
“A Sociedade é lógica e cronologicamente anterior ao homem”  Emile Durkheim
O sociólogo francês, Emile Durkheim, tinha por objetivação analisar e apresentar a sociedade como sendo uma formação social humana que precede a existência social humana. Durante muito tempo, filósofos escreveram sobre o contrato social, supondo que os homens viviam num estado de natureza e teriam renunciado ao mesmo (liberdade) para viver em sociedade. A Sociologia em geral não concorda com essa visão. Emile Durkheim defendeu o primado da sociedade sobre o indivíduo, o que significa que não há homem sem sociedade, pois o homem é essencialmente um ser social (formado na sociedade). Assim, a sociedade não era simples soma de indivíduos, mas uma realidade exterior ao indivíduo que organiza e dá sentido a existência do mesmo (existência interior).
A sociedade se organiza através de uma consciência coletiva, e, por isso não basta falar em uma simples soma de pessoas, pois a sociedade é um sistema formado pela associação de pessoas, e é representante de uma realidade especifica de características próprias. Essa consciência coletiva é exterior ao individuo e exerce sobre o mesmo um poder de coerção. Esse poder de coerção exterior ao indivíduo e presente em sua consciência, Durkheim nomeou de Fato Social, que significa que esse indivíduo desde o nascimento, e principalmente a partir da aquisição de uma consciência de existência, passa a absorver as regras, os valores, os costumes da sociedade. Dessa forma, os fatos sociais têm uma existência externa às consciências individuais e consistem em ideias ou normas de conduta que são estabelecidas pela coletividade em que esse indivíduo está inserido, e não isoladamente. Assim os fatos sociais são externos ao indivíduo porque existem antes de ele nascer e continuarão existindo depois que ele morrer.
Entender esses fatos sociais se faz fundamental para entender Emile Durkheim, e o único método válido para fazer isso, segundo o mesmo, seria aquele em que o cientista social deve abandonar suas prenoções (valores e sentimentos pessoais em relação ao objeto estudado), Já que eles podem distorcer a realidade, esse processo que ele cunhou de neutralidade cientifica.
Então veja, esse homem/mulher social (formado socialmente) coagido por fatos sociais e possuidor de uma consciência coletiva, decide/escolhe viver em sociedade, a mesma que o controla, por quê? Simplesmente porque o mesmo não consegue conceber a própria existência fora da sociedade, ou em outras palavras, a sociedade é mantenedora de sua identidade. A esse esquema de trocas entre sociedade e individuo Durkheim, chamou de solidariedade, que difere do sentido cristão da palavra. Solidariedade aqui é a convivência com o outro (em sociedade) por necessidade de ambos para a mesma. Essa solidariedade foi apresentada como sendo de dois tipos: a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica.
Solidariedade mecânica: modelo de convivência mais antigo, rural (folk), de pequenas comunidades, onde a ação coletiva tem como referência um modelo social comum, uma presença muito forte de uma consciência coletiva legitima e legitimada. Podemos usar como exemplo o relógio, onde todas as peças, mecanismos, engrenagens e outros; atuam com a finalidade de fazer o relógio funcionar, e fornecer horas.
Solidariedade Orgânica: modelo de convivência da modernidade ou pós-revolução industrial que se caracteriza pela autonomia de ação. Os indivíduos tornam-se diferentes uns dos outros, a solidariedade só pode surgir da percepção geral de cada um com suas especificidades, dons e especialidades, e assim, contribui de maneira diferente para a sobrevivência do todo. Algo como o corpo humano com diversos órgãos que formam um só organismo/corpo, onde todos trabalham para exercer sua função especifica e indiretamente contribuem para a sobrevivência do todo.
Referente à Educação, ela pode ser compreendida como o conjunto de ações exercidas das gerações adultas sobre as que ainda não alcançaram o estatuto de maturidade para a vida social. 
Partindo desta orientação, elabora sua teoria da educação, propondo uma socialização metódica das gerações novas. Para ele, era necessário articular a pedagogia à sociologia, uma vez que a escola teria como finalidade suscitar e desenvolver na criança certo número de estados físicos, intelectuais e morais exigidos pela sociedade e que seriam aplicáveis à mesma.
Sobre a Religião Durkheim tem um amplo interesse pela religião porque ela articula rituais e símbolos que têm o efeito de criar entre indivíduos afinidades sentimentais que constituem a base de classificações e representações coletivas. Para ele a religião é um conjunto de práticas e representações que vemos em ação tanto nas sociedades modernas quanto nas sociedades primitivas, e, ao tomar como objeto a religião, Durkheim tenta estabelecer que ela não suponha necessariamente a crença num Deus transcendente. Ela é antes de tudo um “sistema de crenças e de práticas”, definidoras do viver social.

Resumindo, para Durkheim a sociedade “faz o individuo” porque prevalece sobre todas as pessoas, assim a vida em sociedade aponta para uma consciência coletiva (conjunto de regras morais vigentes em uma estrutura social). Essa consciência coletiva apresenta dois modelos de convivência social, a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica. Sobre a educação, entende que a mesma é método central de socialização do individuo e analisa a religião e sua importantíssima influência no comportamento e convivência social. A sociedade, nesta perspectiva durkheimiana é uma engrenagem social que objetiva incorporar em todos os seus comparticipes o “espírito” da sociedade para que a partir do mesmo se determine internamente no indivíduo como deve agir, pensar, desejar, rejeitar, falar (fato social) e tudo o mais.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Política: a Arte e Ciência de Governar

Política: a Arte e Ciência de Governar

As relações sociais são permeadas de tantas ideias, valores, sentimentos oriundos das formações sociais que obtivemos e que nos foram impostas (família, escola), que tendemos a considerar todas as coisas como naturais, com a imperante sensação de que sempre foi assim e de que assim o continuará. Contudo, todavia, no entanto, porém, é nosso papel/dever/obrigação de questionarmo-nos se não poderia ou deveria ser diferente.
A Política é discussão antiga que, como veremos, permeia as relações humanas e que por isso mesmo precisa ser pensada e entendida como uma construção histórica propositada e propositora (Maquiavel). Desde cedo somos ensinados na arte e ciência de sermos governados por todos aqueles que nos amam e nos cuidam. Aos quais em troca respondemos em respeito e obediência para uma melhor realização dos propósitos sociais já planejados ao nosso respeito. Voltaremos a essa perspectiva, formativo pessoal, de uma consciência política à frente.
Política é a habilidade pessoal ou organizacional no relacionar-se com os outros, tendo se em perspectiva a obtenção dos resultados desejados. Olhando o processo político de forma direta é preciso que entendamos o mesmo como um processo de luta de interesses diretos ou não tão diretos, onde se objetiva um bem qualquer em troca de outro bem ou outros bens quaisquer, ainda que esses não sejam materiais ou sejam somente abstratamente quantificáveis. De qualquer modo a omissão ou ignorância política provoca uma incompetência política para participar do jogo político que é o viver. E aqui podemos pontuar a primeira desmitologização ideológica social, que é a de que política é para políticos, e que se concentra em Brasília, no caso do Brasil. Oras, política é um exercício relacional continuo entre pais, filhos, irmãos, amigos, namorados, amantes. Teriam todos esses os mesmos interesses sempre? Assim, é na convivência e disputa de desejos, vontades, interesses, sonhos e tudo o mais, que vai se construindo nossos relacionamentos, e é na realização plena ou parcial dos mesmos que se mantém, aprofunda ou abrevia a prática político relacional. Claro que podemos chamar de amor – empatia, comprometimento, bem querer – não há problemas nisso; contudo, falando de prática sócio relacional política, Nicolau Maquiavel dirá que: “O homem é um ser desejante, que busca incessantemente o que não tem, o que lhe faz falta”.
Nos regimes democráticos a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos atuando nos mesmos (legislativo, executivo e judiciário), ou militando a respeito dos mesmos em busca de melhores atuações públicas ou ainda exercendo o direito/obrigação da escolha da melhor alternativa política para o gerenciamento do poder público que direta ou indiretamente envolve a todos. A partir daqui é preciso ficar claro que a política é de uma importância vital para definir a quantidade de açúcar que você poderá utilizar no seu café, e mesmo que seja exagero da minha parte, pare e pense, quanto que uma crise política afeta a economia e uma crise econômica afeta sua vida? A presença da política está muito além da economia, ela envolve e move a história, passiva ou ativamente. Vejamos uns poucos e importantes exemplos:
“O homem é naturalmente um animal político”. Aristóteles afirma em A Política que o homem é zoon politikon (animal político), que significa que sua formação social e desenvolvimento pessoal depende da polis e boas convivências politicas na mesma para sua plena realização pessoal e, principalmente, ética.
Maquiavel, como já citado, dirá que a política é a “Arte de conquistar, manter e exercer o poder/governo”
Para o pensamento contratualista, o Estado político é a troca de anarchia pela archia, a troca do estado de natureza pelo estado civil e político, em seus variados modelos. Pois aqui a convivência social e política é garantidora de um usufruto muito superior a relação estabelecida pela sobrevivência do mais forte.
Já Marx e Engels apontarão em suas obras que a prática política é como uma gangorra antagônica, em que ascensão de classe é queda de classe, o sucesso de alguns é devido ao insucesso de muitos. A ação política é revolucionaria para o estabelecimento de uma nova política igualitária e igualadora dos seus comparticipes.
  Max Weber dirá que “O fim da política é a aquisição do monopólio da força”. Política é a busca legitimada do uso autorizado da força para imposição dos próprios interesses sobre os interesses dos outros com a aprovação dos mesmos.
Eu diria que “A política é um jogo de interesses, em que o político e o povo querem a mesma coisa, satisfazer suas vontades”. Embora suas vontades não sejam semelhantes e o povo ignore isso. Diria que “a esfera pessoal é uma esfera política”, e que assim, a convivência social se perfaz numa disputa oculta de alavancar os próprios desejos em negociação com desejos em sentidos contrários, semelhantes, compensatórios. Não é uma visão pessimista. Veja, o amor é a política dos sentimentos que se perfazem na busca de realizar enquanto se realiza, mesmo que se realize em negação de si, a partir do conceito Ágape (de Jesus, por exemplo), o que nos daria uma outra longa discussão. O fato é que somos seres desejantes em busca da satisfação de desejos e até mesmo a abnegação é uma expressão dessa condição humana, como diz Maquiavel no Príncipe.
Não poderíamos deixar de abordar nessa breve reflexão política a questão da despolitização do cidadão brasileiro, que tem relação direta com a negatividade que é atribuída a mesma pelo imaginário popular de que política é coisa de pessoas de má índole, gananciosas e interesseiras. Ideias de que o meio político é inescrupuloso e corrompe qualquer um que participe dele. Porém, somente esse imaginário popular não seria suficiente para tal rejeição, há uma forte ignorância política pela não formação política da população em todas as classes, tanto no âmbito familiar, como no escolar. A falta de diálogo, debate e conhecimento político nos leva a votar em pessoas, não em propostas. Nos leva a não avaliar, estudar e conhecer o passado e presente dos candidatos. É preciso consciência política, mas a dificuldade sempre esbarra no “não gosto de política”. Mas para os que repetem tal “heresia”, é preciso dizer que enquanto o homem viver em sociedade, não há como não gostar de política. Ela está em tudo o que fazemos, ela permeia nosso ser e formação pessoal/social, nossas escolhas são embebidas do conhecimento ou desconhecimento político, pois por mais de foro íntimo que seja uma escolha que fazemos ela terá desdobramentos para o nosso coletivo e social, seja de uma forma ativa de nossa parte, seja de uma forma passiva, dela sobre nós.
Para encerrar alguns exemplos práticos da ação política em nossa prática de vida diária, seja ela politizada com consciência ou não. A política tem participação direta em diversas esferas de nossas vidas, em como educamos nossos filhos (lei da palmada), as tomadas obrigatórias em nossas casas, o extintor dos carros, o kit de primeiros socorros, os faróis acesos nas estradas, a aposentadoria pela previdência social, o modelo educacional que nossos filhos terão, o preço do combustível para nossos carros, o preço do gás de cozinha, as regras para convênios médicos, seguros de todo tipo (toda e qualquer medida cabível para garantir a segurança e saúde), os índices de taxa de juros para o país (que corrobora com o andamento da economia e da inflação), o preço da energia elétrica e por diante. Nestes termos, temos que a política incide diretamente sobre nós, com consciência política ou não, para definir a nosso favor ou contra nós os modelos sociais, políticos, econômicos e democráticos de convivência e vivência, coletiva e pessoal.
    


As Origens da Sociologia

As Origens da Sociologia

A Sociologia é uma ciência que nasce do interesse da Filosofia em entender e explicar as organizações humanas e sociais. Ela se perfaz em uma ciência humana que estuda as unidades que formam as sociedades, ou seja, ela estuda o comportamento humano em função dos meios e os processos que interligam os indivíduos em associações, grupos ou instituições.
A Sociologia estuda o homem na sociedade, assim como a Física estuda o movimento dos corpos, ou a Biologia as formas de vida existentes, ou a Filosofia os pensamentos do homem, e a Química a composição das matérias. É uma ciência entre as outras que pretende analisar e estudar a composição da sociedade, suas formações e motivações. Ela tem como intenção inicial a produção de soluções para os problemas sociais como a violência, as desigualdades sociais (pobreza, fome), as causas comuns de morte (homicídios, acidentes, suicídios). Vejamos algumas das propostas sociológicas.
Auguste Comte (1798-1857) desenvolve o conceito de Física Social que seria a análise da sociedade tal qual a um organismo vivo em que diagnosticado corretamente pode ter suas mazelas sanadas, assim para ele a tarefa da sociologia seria de promover um melhoramento da sociedade numa análise positiva da mesma (Positivismo).
Karl Marx (1818-1883) realiza uma leitura sócio econômica da sociedade na qual analisa a condição das classes sociais e a sobreposição entre elas. Faz um extenso trabalho de análise da condição dos burgueses (donos dos meios de produção) e dos proletários (trabalhadores) e em como a relação entre eles é exploratória do segundo sobre o primeiro.
Emile Durkheim (1858-1917) desenvolveu o conceito de socialização, no qual o homem é um animal que só se torna humano pelo processo de socialização, pela formação humanística que recebe da família, da escola e do meio social. Realizou um influente estudo sobre o suicídio e suas determinantes sociais (veremos a frente).
Max Weber (1864-1920) fez da ação social humana individualizada o objeto dos seus estudos sociológicos, visto que estaria na mesma as condições e motivações para a compreensão do todo social. Obteve grande importância histórica com seus estudos sobre a religião e suas influências sobre as estruturas sociais da sociedade em que participa.
Florestam Fernandes (1920-1995) realizou diversos estudos de compreensão das origens das desigualdades da sociedade brasileira. Teve importantes trabalhos na sociologia brasileira, como os estudos sobre a organização social dos Tupinambás (1949), ou A Integração do negro na sociedade de classes (1965), e muitas outras.
Fique aqui registrado, como conceito introdutório, que a Sociologia é uma matéria que compõem a grade curricular do Ensino Médio, contudo seu alcance transcende o mesmo, podendo ela ter uma aplicabilidade positiva para a esfera pessoal no desenvolvimento de uma melhor vivência (consigo mesmo) e melhor convivência (do eu para o outro), a partir do entendimento dos processos sociais formativos e do conhecimento da historicidade das relações e convivências humanas em seus sucessos e fracassos para podermos, a partir daí, fornecer a nós mesmos um amplo conjunto de saberes que nos propiciarão a possibilidade de um melhor viver e conviver. Boa caminhada para você e para nós. 


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Violência e Criminalidade


 Violência e Criminalidade


Não pretendo ser redundante ou repetitivo, mas por outra vez, temos aqui que refletir sobre o assunto, e para fazê-lo precisamos usar, uma vez mais, nossas lentes sociológicas. Que irão nos permitir ter do tema proposto um olhar mais acurado e preciso, diferente do senso comum, um olhar acurado e cientificizado.
Violência e Criminalidade são fenômenos sociais que se assemelham, mas que são distintos. Existem crimes que não são violentos e atos violentos que não são necessariamente criminosos. Veja-se o caso de uma guerra, uma protesto, uma revolução, ambos podem acontecer sendo uma decorrência do outro ou acontecer sem termos associação direta, mas podem desencadear em tipos de violência e, até, crimes legítimos. O Estado (governo) é um exemplo do uso legitimo da violência (Weber) sem associação direta com a criminalidade. Há ainda a violência em competições esportivas (boxe, MMA, futebol americano). E há por outro lado crimes que não tem associação com a violência, como é caso de sonegação de impostos, infração de trânsito, uso de drogas e outros. Portanto, violência e criminalidade, embora possam e costumam estar associadas, são fenômenos diferentes. Violência não é crime, pois crime é uma determinação social. Crime é uma anomalia na sociedade estabelecida. O crime é para a sociedade como uma célula doente para o organismo humano. Só que no caso da sociedade. é ela que decide o que seria uma célula doente para si.

As relações sociais que reproduzem exclusão e miséria são uma forma explicita de violência.

O interesse da Sociologia está nos fenômenos sociais como vandalismo, homicídios, suicídios, guerras, conflitos sociais. A análise social tem primazia, colocando de lado (na medida do possível) os juízos de valor, sentimentos de indignação, raiva, tristeza (que são decorrências culturais); mas por outro lado percebe como violência direta os fenômenos da exclusão, preconceito (passível de ser crime) e pobreza. Exemplo claro disso é a seletividade de nosso sistema policial e penal, que alcança melhor e mais depressa pobres, negros e nordestinos. Como análise sociológica é preciso perceber e procurar meios de entender o fenômeno social em que os negros (não só no Brasil), os nordestinos (sobretudo os que estão fora do nordeste), homossexuais, índios, população de rua, e outros, que estão de fato à margem da cidadania e sofrem a violência e discriminação social, ostensiva ou não, que vai desde a mera suspeita até julgamento/condenação/execução penal, todos enormemente influenciados por preconceitos e injustiças sociais. Também é possível analisar sociologicamente a divisão social de bairros nas grandes cidades, principalmente, onde ocorre uma guerra silenciosa entre os ricos e pobres, uma violência sócio psíquica[1]. Uma temática presente na análise social da violência é a associação da mesma com a pobreza. A pobreza não é causada pela violência, mas quando aliada a dificuldade dos governos em oferecer melhor distribuição dos serviços públicos, torna os bairros mais pobres mais atraentes para a criminalidade e a ilegalidade.
No Brasil a violência e a criminalidade estão diretamente associadas, no senso comum, mas estão presentes em grande escala tanto no âmbito social econômico alto e como no baixo. Temos violência (agressão a mulheres, crianças, velhos, deficientes) tanto nas classes altas como baixas, e a criminalidade (rompimento dos acordos sociais normatizados) praticados por ambos os públicos. Sendo somente seu alcance de maior ou menor amplitude. Um político que recebe propina é tão corrupto quanto um motorista que suborna um guarda de trânsito. A criminalidade é crime seja em esferas federais ou particulares.

Violência urbana
A violência urbana revela uma característica que a diferencia de outros tipos de violência e está ligada as condições sociais de vida impostas no espaço urbano, principalmente por ser populoso e privar a maior parte da população daquilo que seria considerado direito ou condições necessárias de vivencia e sobrevivência. A violência urbana pode ser determinada por questões sociais, econômicas, valores culturais, políticos e morais de uma sociedade. No nosso Brasil, por exemplo, encontramos instituições frágeis[2], profundas desigualdades econômicas e uma tradição cultural de violência, que têm uma aceitação social da ruptura constante das normas jurídicas e o desrespeito naturalizado à noção de cidadania. Temos a violência dos agentes do Estado, a polícia, contra as pessoas mais pobres (jovem, masculino, negro/pardo, morador da periferia), que é aceita com certa indiferença e se incrustam na cultura e nos modos de ser da sociedade urbana. Neste sentido, há uma reprodução. A violência sofrida é violência reproduzida, a agressão da escola periférica, o atendimento nos hospitais públicos, as condições de transporte trabalho/casa, as condições de moradia da periferia, a estética estrutural da periferia e a luta para aceitação social no mercado de trabalho já constituem uma agressão comum e sempre presente para essa população urbana, que é a grande maioria.  
No senso comum, vinculamos o aumento da criminalidade ao aumento da pobreza. Contudo, esta percepção social se mostrou um tanto enganosa. Tivemos na ultima década uma diminuição da pobreza e ao mesmo tempo um significativo aumento da violência. É obvio que a pobreza é um dos fatores da violência, e é exatamente isso, “um” dos fatores e não o “fator”. A violência e a criminalidade não tem nível socioeconômico especifico, roubar uma carteira/celular ou sonegar o imposto de renda são crimes socialmente e legalmente reconhecidos, e assim, temos que a violência e criminalidade não são determinadas pelo nível econômico.
Claro que podemos fazer claras divisões de violência/criminalidade por nível socioeconômico. O crescimento da violência tem demonstrado que sua distribuição ocorre de modo desigual pela cidade. Os crimes contra a vida (homicídios) concentram-se mais nas regiões periféricas, enquanto que os crimes contra o patrimônio concentram-se nas regiões centrais – onde também se têm maior concentração e circulação de riquezas. Olhando para a cidade de São Paulo quanto à distribuição espacial da criminalidade urbana, os roubos ocorrem com maior frequência nas regiões centrais e oeste, enquanto que os homicídios ocorrem em maior proporção nas regiões Sul e Leste, que são as regiões periféricas, mais pobres, com piores condições socioeconômicas.  Sobre a criminalidade há uma aceitação passiva da população de alguns casos de linchamento ou extermínio, como que delegando aos executores (cidadãos comuns e não agentes públicos representantes do Estado) direito executivo e judicial para o mesmo.

Vejamos algumas informações e estatísticas sobre a violência e criminalidade no Brasil na ultima década.
O Brasil registrou 59.627 homicídios em 2014, o maior número já registrado em território nacional, é uma estatística que coloca o país em primeiro lugar no ranking mundial em homicídios. Em termos relativos, esse número equivale a uma taxa de 29,1 mortes por 100 mil habitantes, uma das maiores do mundo[3]. Em 2013, o número de homicídios foi de 57.396, com uma taxa de 28,3 por 100 mil. Os dados são do Atlas da Violência, pesquisa feita em parceria entre o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde[4]. A pesquisa ainda revela que jovens negros e com baixa escolaridade são as principais vítimas. No recorte por sexo e faixa etária, o estudo indica que 46,9% dos homens que morrem entre os 15 e os 29 anos são vítimas de homicídio. O número salta para 53% quando são jovens de 15 a 19 anos.
A pesquisa também mostra que o nível de escolaridade é um fator determinante para se identificar os grupos mais suscetíveis às mortes por homicídio. Segundo o Atlas da Violência, um jovem de 21 anos, idade de pico das mortes por homicídios, e com menos de sete anos de estudo tem 16,9 vezes mais chances de ter uma morte violenta do aquele que chega ao ensino superior.
A questão da situação socioeconômica é outro fator determinante para o risco de morte. O balanço do IPEA e do FPSP mostra que, aos mesmos 21 anos, as chances de jovens pretos e pardos, que representam a maior parte da população pobre no Brasil[5], morrerem por homicídios são 147% maiores do que de jovens de outros grupos étnicos. O estudo ainda aponta que, entre 2004 e 2014, houve um crescimento de 18,2% de homicídios contra negros, e uma diminuição de 14,6% contra pessoas que não são pretas ou pardas.

O gráfico abaixo mostra o aumento de homicídios nas regiões e estados brasileiros em porcentagem, entre os anos de 2004 e 2014.

Descrição: http://og.infg.com.br/in/18932010-7b0-a07/FT1086A/420/MAPA-VIOLENCIA.png
Para mais informações sobre o tema em relação à Violência Policial, Homicídio de Afrodescentes, Violência de Gênero, Arma de Fogo e outros, acesse http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/160322_nt_17_atlas_da_violencia_2016_finalizado.pdf



[1] O rico sentirá está violência ao frequentar lugares estabelecidos socialmente para os pobres, enquanto que os pobres também sentirão o desconforto de frequentar/pariticipar lugares geograficamente ou socialmente determinados para os ricos
[2] Embora o ano de 2016 tenha contribuído significativamente em sentido muito participativo e eficaz no legislativo (impeachement e reformas diversas) e no judiciário, principalmente.
[3] Segundo a ONU, um número aceitável seria de 10/100 mil habitantes.
[4] Informações em http://www.valor.com.br/brasil/atlas-da-violencia.

[5] Representam 54% da população brasileira e 76% dos mais pobres do país.

sábado, 5 de novembro de 2016

Globalização: Sociedade e Cultural

Globalização: Sociedade e Cultural

No âmbito da análise social (ou pensamento sociológico), conhecer um conceito, uma ideologia, uma estrutura ou mesmo sociedade, significa ter de conhecer e perceber realidades, ideias, saberes que os envolvem, antecedem ou sucedem, pois o todo só é perceptível com a percepção de suas partes e os saberes a ela relacionados. Façamos isso analisando as partes para entender melhor o todo referente às novas configurações sociais que vivenciamos com a Globalização.
Sociedade: é todo grupo humano, duas ou mais pessoas, que entram em acordo a cerca de algo, que define que o viver em sociedade é a melhor alternativa. Definem que estar associado é a melhor possibilidade de existência. Para Aristóteles o ser humano é definido como zoon politikon, que significa que o homem é um animal político, condicionado a sociedade para ser realmente humano, para desenvolver o melhor de si, seu thelos e sua eudaimonia. Já para os Contratualistas, Hobbes/Locke/Rousseau, o humano entra em associação para garantir a si mesmo melhores possibilidades de existência, maior segurança e dinâmica para a realização pessoal.  
Cultura: é todo conteúdo construído na associação ou sociedade desenvolvida pelos humanos. Agrupados, homens e mulheres, desenvolvem comunicação/linguagem, vestuário, alimentação, trabalho, relacionamentos (amizade, casamento), diversão e muitos outros. Assim, cultura é um derivativo da associação humana e sua subsequente produção. Desse modo, a cultura torna-se uma condição humana determinada pelas condições temporais e espaciais, ou seja, determinados pelo local e modo de sobrevivência no mesmo e pelas condições temporais, que, por exemplo, determina o tipo de entretenimento presente na Europa do século XV e na Europa de hoje.
Globalização: é um processo econômico e social que estabelece uma integração entre os países e as pessoas do mundo todo. Através desse processo os governos, as empresas e a pessoas trocam informações, ideias, negócios, transações financeiras, comerciais e pessoais. E, também, por essas relações espalham, difundem os aspectos culturais pelos quatro cantos do mundo. O processo de globalização teve seu início entorno do século XV com as Grandes Navegações pelo mundo, que denominamos de Expansão Marítima, mas teve seu ápice com a revolução tecnológica da última década. A informática, internet e celular dinamizaram esse processo de globalização, tanto no âmbito econômico como pessoal/social. Perceba que essa nova forma de associação, ou sociedade, tem como reflexo duas consequências diretas. 1º formulação de novas culturas por meio dessa nova forma de associação/sociedade e 2º a importação, assimilação e transposição de culturas pelo mundo afora.
Algumas consequências diretas:
Diversificação Cultural (assimilação, incorporação de valores, ideologias e cultura) 
Transposição Linguística (Inglês, Espanhol, Francês)
Transposição e assimilação Alimentar (Mc’donalds, comidas chinesas, japonesas)
Assimilação estilística , jeito de vestir e marcas referenciais (Nike, adidas, Rolex, Levi’s, Armany)
Assimilação e transposição tecnológica ( Samsung, Lg, Aplle, Windows, Sony, Brastemp)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Modernidade, Pós-Modernidade e Multiculturalismo

Modernidade, Pós-Modernidade e Multiculturalismo

É natural ao homem/mulher contemporâneo procurar fazer explicação do seu presente pelo seu passado, como se pretendesse responder a pergunta “porque estamos assim?”. Essa classificação de concepções humanas ao longo da história tem por finalidade categorizar e facilitar a compreensão da forma de pensar e viver do ser humano nesses períodos. Essas formas de pensar geram formas de viver e conviver, que concebemos como cultura, e que em nossos dias se apresenta como culturas plurais (globalização). Entendamos um pouco essa transformação histórico-social.
Modernidade: foi à atmosfera cultural que permeou o período histórico entre o inicio da Expansão Marítima (séc. XV) e percorreu o racionalismo histórico, chamado Iluminismo, e se solidificou na Revolução Industrial. O pilar da Modernidade é a crença no conceito de progresso (positivismo), a noção de “sujeito” (individuo) e a centralização na racionalidade humana. Contudo, e subsequente aos pilares citados, a maior característica da Modernidade é sem dúvidas o desenvolvimento do capitalismo. Os modos e modelos de produção capitalista redefiniram contextos culturais e estilos de vida sociais (Revolução Industrial – Revolução Tecnológica – Indústria Cultural).
Pós-Modernidade: seria a percepção da mudança estrutural – social – econômica das condições que definiriam a modernidade. A mais significativa dessas mudanças é o fim das metanarrativas (esquemas filosóficos explicativos da vida e do mundo – filosofia/razão e Deus/religião), inclusive da própria ciência como verdade e certeza definitiva. Zygmunt Bauman trata a pós-modernidade como modernidade líquida (uma realidade ambígua, multiforme, individualista, consumista e hedonista) que se apresenta com as mesmas estruturas (família, amor, religião, capitalismo) da modernidade, contudo tendo agora muita flexibilidade (líquida).
A pós-modernidade é marcada (filosofia, ideologia, religião) pela conciliação de verdades inconciliáveis. É marcada, também, pelo capitalismo pós-industrial, que significa que a economia não se estrutura mais pela produção de mercadorias e sim pelo consumo de mercadorias. Outra grande característica deste período histórico-contemporâneo é a “Síndrome do Consumismo e a Ética do Hedonista”. Para entender a sociedade pós-moderna é preciso partir da alteridade que se acha no âmago do eu (o eu é um outro), o que se chama de “eucentrismo”. Se fossemos categorizar e apontar o aspecto central de cada período histórico, o Medieval seria teológico; o Moderno seria econômico e o Pós-Moderno seria estético-hedonista.
Multiculturalismo: já vimos que a globalização imprimiu profundas mudanças nas relações sociais e nas culturas, isso por ser ela um acontecimento central da pós-modernidade. O termo multiculturalismo representa a coexistência de múltiplas culturas num mesmo lugar, é uma sociedade composta de pessoas de “mundo diferentes”. O multiculturalismo está em oposição ao etnocentrismo e a monoculturalismo.

A globalização do capital e a circulação de novas tecnologias trazem consigo a afirmação de identidades locais e regionais, que tem direitos a diferença, ou seja, direito de ser diferente. O Multiculturalismo é, nestes termos, a não uniformização social, mas o advento contemporâneo do “olhar sobre si a partir de si” (quem pode falar o que é ser pobre, ou o que é ser mulher?), essa nova realidade social é a possibilidade de olhar e interpretar o mundo na própria perspectiva cultural.