quinta-feira, 3 de maio de 2018

Corrupção Como Mal Social


Corrupção Como Mal Social

Somos células, músculos, fibras, carne, tecidos, órgãos, mitose e meiose, transmissões sinápticas, matéria que pensa e sente, aprende e ensina. Essa é a nossa existência fisiologicamente determinada e condicionada há uma realidade material que sujeita todo esse complexo biológico, determinando em muito o que ele seja e como se relaciona com o meio. Diante dessa existência primariamente biológica e fisiológica, precisamos refletir e entender o quanto o meio, natural ou social, influência na formação e definição do ser. E neste intuito, pensemos sobre a corrupção que é o desvio de um caminho desejado e determinado, que é o desvio de um comportamento tido como padrão e adequado. E, pensemos também sobre os fatores motivadores para a existência e permanência da corrupção em nosso contexto social, e, em nosso caso na nossa sociedade/país/nação.
Corrupção é o corrompimento algo, e corresponde à ideia de decomposição, que significa decompor negativamente uma realidade social, política, econômica, familiar, íntima ou outras. Na esfera das relações humanas está relacionado ao suborno, que é o ato de se corromper ética e moralmente em busca de um ganho fácil e rápido; corromper é oferecer algo para obter vantagem em negociata qualquer na qual se favorece uma pessoa e se prejudica outra (s); corromper é oferecer ou prometer vantagem indevida a qualquer pessoa para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar um ato adequado a uma situação que assim a demanda.
Segundo o professor Leandro Karnal corrupção é uma decorrência social: “A corrupção é um mal social, a corrupção é um mal coletivo”; aplicando na política diz: “Não existe governo corrupto em uma nação ética, e, não existe nação corrupta com um governo ético e transparente”. Assim, o comportamento das pessoas, independente da condição econômica, é resultado direto da sociedade em que este é socializado. Se uma criança Suíça agir com mais ética que uma criança brasileira não é mérito direto da criança, e sim do seu meio social, que a condiciona (sem tirar sua liberdade) a agir de tal e tal maneira. Segundo Karnal, entre nação/povo e governo há um espelhamento, uma prática comum e generalizada em que cada um em sua instância social (no nosso caso é da malandragem e esperteza) busca amealhar ganhos para o particular em detrimento do público. Claro que essa prática por parte do político é muito mais prejudicial para a sociedade do que um cidadão que despensa seu lixo em um terreno abandonado, ou instala uma TV a gato em casa. Contudo, a prática de ambos é corrupta e corrompe o convívio social.
Para Calil Simão[1], é pressuposto necessário para instalação da corrupção, a ausência de interesse ou compromisso com o bem comum. "A corrupção social ou estatal é caracterizada pela incapacidade moral dos cidadãos de assumir compromissos voltados ao bem comum. Vale dizer, os cidadãos mostram-se incapazes de fazer coisas que não lhes tragam uma gratificação pessoal". Há uma ideia imanente de que a corrupção está sempre presente, e de que é perda de tempo e imprudência (quando não dizem ser “burrice”) a prática ética. Por trás está a ideia de que o particular é mais importante que o público, que um bem particular é melhor que um bem público e comum, ignorando que “Toda vez que eu ganho no particular (corrupção) eu perco no público, e faço perderem junto comigo”.
Em Aristóteles a política é o espaço da discussão para o bem viver na pólis, viver em sociedade é praticar a arte de viver bem, e viver bem é a sabedoria de viver junto. Segundo Aristóteles, o que corrompe o homem é a falta de um fim último (finalidade) para as escolhas e as virtudes humanas, num contexto da pólis, no contexto da vida coletiva. Há um jogo de interesse particular, onde o que importa é se o meu “eu” está servido e satisfeito nem que seja às custas dos outros. Ao negar a convivência ética na pólis como espaço de discussão e como arte de bem viver – visto que o sumo bem só é possível nela – nega a si mesmo a possibilidade da melhor existência possível, o pessoal e singular não pode realizar o bem que o coletivo e plural pode proporcionar. O homem virtuoso em Aristóteles, não corrupto, é aquele que exerce a política com vistas ao bem comum.
  Exemplos de práticas com viés singular em detrimento das plural são comuns: “Não é raro ao brasileiro oferecer propina a agentes fiscalizadores e policiais para evitar multa, não dar uma nota fiscal, furar fila, comprar produtos falsificados, bater ponto para o colega, colar na prova da escola, fazer “gato” na TV a cabo/energia/água, alterar o peso e medida de produtos, exercer a profissão sem a devida observância aos Códigos de Ética profissional, sonegação de impostos, utilizar bens públicos para fins particulares ou em benefício de terceiros, entre outros.”[2]. Partindo para um plano geral e macro: “a corrupção prejudica as instituições democráticas, freia o desenvolvimento econômico e contribui para a instabilidade política. A corrupção corrói as bases das instituições democráticas, distorcendo processos eleitorais, minando o Estado de Direito e deslegitimando a burocracia. Isso causa o afastamento de investidores e desestimula a criação e o desenvolvimento de empresas no país, que não conseguem arcar com os "custos" da corrupção”[3].
 Analisando por um viés sociológico, nossa existência está condicionada há uma realidade material especifica, realidade que condiciona e molda (não absolutamente) a própria existência do ser, assim a existência é social e socialmente condicionada e determinada. Tal como explicita Pierre Bourdieu com o conceito de Habitus[4], segundo o qual a sociedade é assimilada na existência do indivíduo e se torna na natural e inevitável possibilidade de existir e ser, não permitindo que o indivíduo decida livremente sua ação e escolha, já que o indivíduo em si é uma decorrência de sua sociedade, e por consequência sua escolha, preferência e existência é primariamente social. Por isso, a corrupção é um derivativo social e é socialmente embutida no ser e tornada em hábito pelo mesmo. Por isso, o entendimento e superação da corrupção está no entendimento da sociedade e suas influências diretas e indiretas sobre o indivíduo, para que o mesmo se torne um agente consciente da sua ação e das influências externas sobre si, podendo assim consentir ou negar a presença e influência social sobre o próprio comportamento, no nosso caso evitar, fugir ou corromper com o habitus da corrupção e adquirir uma novo habitus ético.   
Uma nação ética é resultado de um comprometimento PESSOAL com o que é público, com o que é comum, com o que é plural, com o que pertence a todos. A corrupção é social, a ética é pessoal (primeiramente) e pública. A corrupção é anulada quando o “EU” não é mais valioso e premente que o “VOCÊ”, o “ELES” e o “NÓS”. A ética – a não corrupção – nos humaniza, nos convoca a sermos melhor do que o que fizeram conosco. A ética aposta na nossa condição e capacidade de fazer do plural um ganho maior e melhor que o singular e pessoal. E assim, abrimos mão do ganho fácil, rápido e oportuno por possiblidades melhores que juntos podemos obter.
Somos pensamento, ideia, determinação determinada, somos uma equação biológica/fisiológica/sináptica/cognitiva/emocional/social/cultural. A corrupção é uma semente germinante no seio pessoal como decorrência do cultivo social. Mas os frutos que essa semente poderá fornecer não são necessariamente uma derivação obrigatória da sociedade. No pessoal posso negar o coletivo corrompido para exercer um singular ético que produz sobre o coletivo uma condição mais positiva, autônoma, ética e justa, que por sua vez, poderá a longo prazo produzir um habitus cultural que faça da ética (o bem comum) uma determinação cultural tal qual a corrupção tem sido em nós até então.  



[1] Calil Simão é advogadoprofessorescritor e jurista brasileiro. Atualmente é Presidente do Instituto Brasileiro de Combate à Corrupção (IBCC), membro da Ordem dos Advogados, secção de São Paulo, professor associado do Instituto Brasileiro de Direito Constitucional. 

[2] BIASETTO, Daniel; GÓES, Bruno. Corrupto é o outro. Jornal o Globo, São Paulo, Abril de 2015. Disponível em: Acesso em: 19 de abr. de 2016.
[3] DECOMTEC. FIESP. Relatório corrupção: custos econômicos e propostas de combate. Disponível em: Acesso em: 19 de abr. de 2016.
[4] Habitus fala da incorporação da interação com a sociedade pelo indivíduo. É a assimilação da sociedade pelo individuo, sendo essa assimilação tornada em carne, corpo (célula), pensamento, sentimento. É uma determinação inconsciente, muitas vezes, da sociedade sobre o ser do indivíduo.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Brasil não Presta

O Brasil Não Presta[1]: breve análise da não identificação como identificação nacional
É provável que a maior parte dos brasileiros já tenham dito: “O Brasil não Presta” ou alguma sentença similar. O fato é que vivemos em um Brasil que não vemos enquanto falamos de um Brasil que imaginamos que deveria ser como o idealizamos a partir de ideias ideais de nação. Tal ideia está presente no texto Escorraçando o Vira-latas[2]:
"Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil, realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos”.
Falamos de um Brasil que não é nosso, um Brasil que representamos em discursos e ideias, um Brasil que faz parte de nossa alienação social (representação de nossa realidade social sem auto reconhecimento na mesma), um Brasil que é nossa casa e nosso destino. Nos comentários do texto Escorraçando Vira-latas encontramos dezenas de comentários atacando o país (sua política, educação, povo, cultura) e dizeres como: “Quem pode suma deste lugar, faça o quanto antes” “vaza daqui, vão embora pra outro país”, “o pior do Brasil são os brasileiros”. São brasileiros falando de um Brasil que não aceitam, respeitam ou desejam. Como propor solução para uma nação/população que não se aceita sendo como é, e que, pior ainda, não se enxerga como responsável por seu país ser o que é. As soluções para tal problemáticas são problemáticas, visto que queremos usar o pé para cuidar/tratar do pé (usar as mãos seria mais eficiente). Vejamos alguns apontamentos da formação da psique brasileira segundo as observações de Contardo Calligaris em seu livro Hello, Brasil.
O Brasil em seu processo de formação não teve uma umtegração brasileira (a formação de um estado nacional), que seria o surgimento de uma nação com consciência de nação. Os diversos aspectos históricos contribuíram para isso, como a subjugação e genocídio dos índios, a integração forçada (e posterior rejeição social) dos negros africanos e a vinda de povos europeus e asiáticos em busca de conquistar no Brasil aquilo que não conseguiram em sua própria pátria. E estando aqui não construíram uma consciência e ideal nacional. Contardo aponta as diferenças existentes entre a independência americana e a independência brasileira, a primeira feita pela população local como representatividade de uma identificação existencial e nacional, e a segunda como um ato do colonizador/colono que tem por fundo seus próprios interesses (pessoais e familiares) e não os interesses de formação de um país, um Estado, uma nação, um povo, uma identidade e uma nacionalidade.
Então, o Brasil, presta ou não presta? O psicanalista Octavio Souza respondeu assim: “Este país não presta” talvez seja uma frase relacionada a um equívoco, como quando, ao tentarmos seduzir uma mulher que se mostra indiferente às nossas propostas, nós reagimos à desfeita protestando meio indignados, mas afetuosamente: “você não presta” (subtexto: “mas eu quero”[3]).
Para o colonizador o “Este país não presta” é sua frustração em não conseguir adquirir nele aquilo que perdeu em sua própria pátria, e o “Este país não presta” é para o colono o fracasso da umtegração, pois esse país não soube ser um pai, um um nacional capaz de assujeitá-lo (torná-lo sujeito). O “Este país não presta” é resultado de um olhar brasileiro alienado do que o Brasil é e do que imaginamos ou gostaríamos que ele fosse. Intuídos de um ideal nacionalista de diversas fontes externas ao Brasil, como se colocar o Brasil nas roupas dos Estados Unidos, Alemanha, França ou outro, pudesse dar-lhe mais dignidade.
Segundo o antropólogo Roberto DaMatta[4], é preciso fazer a distinção entre o brasil com letra minúscula que é o nome de um tipo de madeira de lei e de uma terra destinada a exploração, de Brasil com letra maiúscula, que designa um povo, uma nação, com conjunto de valores, escolhas e ideais de vida. E é precisamente isso que precisamos nos educar a ter como consciência, que existe um olhar, pensamento e ideia sobre o Brasil que não foi propriamente feita por brasileiros (ou pessoas que se sentissem brasileiras), mas esse olhar atravessou a história cultural de nossa formação e ainda povoa nossos pensamentos, levando-nos a pensar o Brasil como colonizador/colono ou como um estrangeiro com outras raízes culturais, os quais teriam razões culturais legitimas para assim pensar.
Tal qual Macunaíma, o herói sem caráter de Mario de Andrade, buscamos diariamente ser heróis da nossa própria existência tendo que subjugar a ética e o bom senso em nossa existência social. Ouvimos e aprendemos que o bom não é o certo, e que o certo é o que é bom, e que o bem pode as vezes se alinhar com os dois. E nessa ética aprendemos que o correto é se dar bem. Quem nunca passou vergonha ao afirmar que gostaria de fazer o certo mesmo que ao seu redor uma atitude incorreta fosse a adequada para todos. Apontamos o dedo para diversas esferas sociais e dizemos o que é certo e o que é o errado, e nesse julgamento valorativo excluímo-nos de valorar nossos próprios atos. Podemos falar daqueles que são ponto comum, os políticos, como representação de corrupção, os quais apontamos e condenamos, mas qual aluno aqui pode em sua consciência (de si para si) dizer que nunca colou, e que se fez foi por um motivo justificável. Assim, vivemos um complexo de Macunaíma, somos o herói que se vangloria não de seus atos éticos e heroicos, e, sim de sua auto elevação ao apontar as falhas e deslizes éticos dos outros.
É típico e originário do brasileiro falar mal do Brasil, pois praguejar sua nação é tão somente uma demonstração autêntica de brasilidade, de sangue tupiniquim nas veias, de assimilação e incorporação (psicológica, emocional, biológica e até fisiológica) cultural do Brasil em si. Quando se pragueja o Brasil se faz aquilo que é natural e cultural ao brasileiro. Se aprende desde cedo, em casa, na escola e em sociedade, a olhar o Brasil como o “país que não é” em vistas a exemplos de países que supostamente “são”. A complicação é que temos brasileiros falando de um Brasil que existe em suas cabeças a partir das idealizações que fazem em seus contatos ou conhecimentos de outros países/nações os quais supõem que o Brasil deveria ser igual. E opomos o Brasil que não existe com o Brasil que existe e fazemos o primeiro vencer o segundo, condenando o derrotado à execração e possível extermínio social de si no mesmo.
 “O Brasil não presta” entra na esfera intima/pessoal, cada um terá suas razões para dizer a favor da sentença ou contra a sentença. Se conseguirmos identificar as razões/motivações para o fazermos já teremos obtido um enorme progresso. Não pensaremos com pensamentos de outros (alienados), mas teremos nossas ideias, razões e motivações para amar ou rejeitar, elogiar ou criticar, aproximar ou afastar, se sentir brasileiro ou desejar o acréscimo de outra nacionalidade. Espero (de esperança) que fique explicito que o ato de questionar e discriminar a nação brasileira é uma característica natural da cultura nacional, e que, embora seja comum não precisa ser um destino comum de nossa própria formação intelectiva e existencial em nossa condição e consciência nacional ser um povo patriótico abortivo, que é rejeitar o útero que nos pariu ao rejeitar a pátria que nos pariu.



[1] As reflexões sobre o “um nacional” e a sentença “O Brasil não Presta” são expressões motriz do livro Hello, Brasil de Contardo Calligaris onde reflete a identidade do povo brasileiro forjada e decorrente de uma psique de colonizador e colono (uma tipificação ideal).
[2] O texto está disponível na internet em https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/razoes-para-o-brasileiro-parar-de-falar-mal-do-brasil, porém, não consegui encontrar a autora.
[3] Hello, Brasil. Página 174. Editora Três Estrelas, 2017.
[4] O que faz do brasil, Brasil? Editora Rocco, 1986.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A Crítica da Cultura na Filosofia de Nietzsche e Freud

A Crítica da Cultura em Nietzsche e Freud
“O homem é uma corda atada entre o animal e o além do homem – uma corda sobre o abismo” (Nietzsche)
“Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que apenas se defendem quando atacadas” (Freud)
A Sociedade, que é a associação dos homens para um melhor viver e conviver, e a Cultura, que é toda uma produção objetiva e subjetiva produzida pelos homens nessa associação, não são coisas naturais ao homem, mas, antes são uma complementação necessária para que a existência em comunidade seja possível. E, como não é natural, ou seja, inevitável que exista, ou inevitável que exista como existe, ela sofrerá reflexões, revisões e transformações no decorrer da história. O termo “crítica” tem esse sentido, de abrir-se para refletir e pensar sobre a coisa (sociedade/cultura) o que é, porque é, como veio a ser e se será o que é ou se será um outro é.
Wilhelm Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Sigismundo Schlomo Freud (1856-1939) são propositores de uma abordagem da Sociedade e de uma percepção da vida como formação cultural, e porque cultural, também repressora. O indivíduo é, segundo eles, uma formação do meio. E por ser uma formação do meio é preciso, para entendê-lo, estudar a formação do meio que o forma em todos os seus aspectos existenciais.
Em o Nascimento da Tragédia (1871), Nietzsche reflete sobre a influência direta que a filosofia e o pensamento grego realizam sobre as formações existenciais humanas, e aponta as influências objetivas da subjetividade do pensamento grego nas sociedades em que se faz presente. Quando reflete sobre o ideal apolíneo e o ideal dionisíaco, traz à tona o dinamismo e o jogo de forças que orientem a vida humana, forças que foram separadas pela civilização, sobrepondo uma sobre a outra, e nesse ato abafando uma das dimensões naturais do existir humano. Apolo é o deus da beleza, da proporção, da harmonia e da serenidade; enquanto que Dionísio é deus da embriaguez, da desordem, da paixão. Segundo Nietzsche, a Filosofia Grega inicia um processo de decadência, ao afirmar certos valores (Apolíneos) como superiores a outros (Dionisíacos), pois nega-se aspectos naturais e constitutivos do próprio ser do humano, aspectos negativos próprios da condição humana como é sofrimento, imperfeição, dor, morte. O cristianismo, segundo Nietzsche, é uma filosofia/ideologia de continuidade ao pensamento grego, que também reforça a busca de um outro mundo (Apolo/céu) em detrimento deste mundo (Dionísio/terra). A crítica de Nietzsche a filosofia socrática-platônica-cristã visa questionar os valores que sustentam nossa cultura, pois esses valores subjugam o humano de si mesmo, e rouba-lhe aspectos fundantes e fundamentais do seu ser (o Dionisíaco e suas características apontadas acima). Suas críticas procuram perfazer a condição humana como aquela que cria valores e se submete aos mesmos, e que se tal se permitir filosoficamente uma outra reflexão filosófica (que inclua os aspectos apolíneos e dionisíacos dos humano) poderá realizar a seu favor uma transvaloração de todos os valores.
Já para Freud em suas reflexões sobre a cultura e a natureza humana (O Mal Estar na Civilização), mostra que não pode haver cultura e civilização sem repressão. O humano é um resultante do processo social e cultural, só que esse mesmo processo formador o impinge de limitações, bloqueios e dilacerações do seu ser. Sobre isso, Freud faz referências diretas as teses de Hobbes sobre o homem, em que esse seria paixão e desejo, que significa que o homem não reluta em destruir ou subjugar outros homens quando estes se apresentam como obstáculos a obtenção de seu desejo.
Poderá parecer estranho a alguém que não tenha considerado bem estas coisas que a natureza tenha assim dissociado os homens, tomando-os capazes de se atacarem e destruírem uns aos outros. E poderá portanto talvez desejar, não confiando nesta inferência feita a partir das paixões, que a mesma seja confirmada pela experiência. Que seja portanto ele a considerar-se a si mesmo, que quando empreende uma viagem se arma e procura ir bem acompanhado; que quando vai dormir fecha as suas portas; que mesmo quando está em casa tranca os seus cofres; e isto mesmo sabendo que existem leis e servidores públicos armados, prontos a vingar qualquer injúria que lhe possa ser feita. Que opinião tem ele dos seus compatriotas, ao viajar armado; dos seus concidadãos, ao fechar as suas portas; e dos seus filhos e criados, quando tranca os seus cofres? Não significa isso acusar tanto a humanidade com os seus atos como eu o faço com as minhas palavras? (Thomas Hobbes, Leviatã).
Freud aponta que os esforços empreendidos na manutenção de nossa civilização vêm resultando num estado de coisas que o indivíduo é incapaz de tolerar sem se tornar profundamente neurótico[1]. O embate entre essas forças vitais e as forças de destruição, existentes no humano, são a contradição central da cultura e da sociedade contemporânea. É preciso conviver para se realizar, mas é a convivência a castradora dos impulsos vitais.
Freud ainda nos traz um outro apontamento crucial para nosso entendimento da condição humana, que é contraditória e paradoxal (visto que precisa da sociedade para existir, mas tem nela a limitação de suas possibilidades de plena realização), o homem age movido por paixões e desejos inconscientes, só que o homem perdeu no decorrer da história os seus referenciais ideológicos e transcendentais. Freud apontará que a existência humana foi golpeada em três níveis (cosmológico, biológico e psicológico). O golpe cosmológico em veio com Nicolau Copérnico, que retirou o humano do centro do universo; já o golpe biológico veio com Charles Darwin, pois este apontou o humano (homo sapiens) como a resultante dos processos de seleção natural e mutação genética. E em terceiro, o golpe psicológico, no qual o próprio Freud apontou que o ego (eu) não é dono de sua própria casa, e assim despedaçou a crença filosófica no poder da razão humana como suficiente para determinar a própria existência do homem. A razão não é soberana, ela é resultante de um processo complexo e paradoxal.
Podemos ver nesses apontamentos reflexivos sobre a cultura feitos por Nietzsche e Freud, que a cultura é um derivativo, e que ela não é absoluta e não está fechada. Assim, é preciso que se faça uma reflexão da sua construção e da sua estrutura estruturadora para que se identifique as condicionantes que a formaram e em um segundo momento para entender a sua composição, e, assim, compreender o que é e aprender como se relacionar com ela em sua forma e estrutura. O que os dois autores propõem é que a cultura (o modo como vivemos em nossos valores e estruturas biológicas e psicológicas) é uma formação realizada por nós, e como tal deve ser revisitada em sua formação e estrutura para que se verifique que a mesma é possibilitadora da melhor existência possível, visto que foi criada com esse pressuposto. Assim, a perspectiva é de criar uma consciência da própria estrutura da consciência, visto ser a consciência determinada pela estrutura, e assim se permitir refletir a respeito da mesma, para aceitá-la, rejeitá-la ou mesmo repensá-la em novas estruturas.



[1] Freud define a neurose como a expressão de um conflito entre os desejos do nosso inconsciente. Para ele, certos impulsos inconscientes são incompatíveis com a realidade exterior ou são impossíveis de serem concretizados, desenvolvendo-se no sujeito um intenso estado de ansiedade e mal estar geral.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Felicidade: algumas ideias e percepções Aristotélicas

Felicidade: Algumas Ideias e Percepções Aristotélicas
“A felicidade é tema normalmente presente provavelmente por sua natural ausência”
Temos a felicidade como tema rotineiro nos livros, jornais, novelas, filmes, seriados e outros. A felicidade tem um fundo presencial em nosso cotidiano, em nossas escolhas diárias, desde a mais simples (o que colocar no prato) a mais complicada (que faculdade cursar, quando casar), e esse tema tão essencial à existência e história humana, presente para cada um de nós, foi também tema dos grandes filósofos da história humana (também dos clássicos Sócrates, Platão e Aristóteles), vejamos como Aristóteles concebia essa que é a dádiva oculta e onipresente em nossa cotidiana vivência, façamos isso refletindo a partir do seu livro I da Ética a Nicomâco.
Comecemos dizendo que na compreensão teleológica de Aristóteles, no livro supracitado, um bem maior é a finalidade de bens comuns e cotidianos, e é a felicidade um fim último, a felicidade é um bem supremo que todos desejam. A Felicidade como fim (finalidade) é o que todos desejam viver. As conquistas e realizações são meios para tal. O que seria essa felicidade? Numa abordagem primária seria “o encaixe de si no melhor de si no mundo e no cosmo em sua própria existência”.
 Felicidade é, também, uma consequência de uma existência equilibrada e equânime, que é a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Felicidade é a justa medida nem excesso nem falta.
Qual o melhor tipo de vida? (Se é que há um) O que é felicidade? É melhor ser feliz ou fazer o bem ou o que é certo? Em Ética a Nicomâco, Aristóteles consagrou a ética do meio termo. Instruiu o seu filho ao prazer e o estudo como melhor meio de vida, visto que a especificidade do homem é ser um animal racional. Para Aristóteles, como Sócrates e Platão, a virtude é a condição em que o homem é senhor de si, tem autocontrole (autarquia). O homem virtuoso é o homem que é senhor e mestre dos seus desejos. A excelência é obtida pelo exercício habitual do caráter. As qualidades do caráter levam a identificar os extremos e a justa medida. Aristóteles dirá quem entre a covardia e audácia, mais necessário e virtuoso é a coragem. Mais aprazível que a belicosidade ou a bajulação, é a amizade e suas consequências. Mais útil que a indolência ou a ganância, está a ambição, que é a chave mestra para a conquista de si e dos próprios quereres. Felicidade está em consonância com o lema grego “Nada em excesso”.
No livro I Aristóteles elenca diversas condicionantes para um viver virtuoso e feliz. Ele elenca, por exemplo, três tipos principais de vida: a vida apenas na fluência de prazeres; a vida segundo as honrarias e benesses da vida política e a vida contemplativa. No que se refere à vida reduzida à obtenção de prazeres, Aristóteles a considera bestial e escrava; quanto à vida pública, considera a honra como concessão do público (o que não é bom). E a vida contemplativa que tem como prática o conhecer-se e a seu telos e a prática da virtude, ambas como condição necessária para a realização da felicidade (eudaimonia[1]).
Já em relação à ética Aristóteles diz que o objetivo da mesma é a obtenção da felicidade (eudaimonia), mas esta sofre grande diferença quando tratada pelo vulgo (plebe, povo) ou pelos sábios, pois o vulgo compara a felicidade ao prazer, riqueza ou ostentação. Eles não conseguem perceber que acima dos bens imediatos há um bem subsistente e causa da bondade de todos os demais (a virtude e os fins existenciais). E para ambas há dois caminhos: o das ações para os princípios ou dos princípios para as ações, e o das ações como são exercidas por nós, o que exige conhecimento e hábito, esclarecimento e boa educação.
Para concluirmos essas reflexões sobre a ética, Aristóteles irá apontar que a felicidade é um instante de vida eudaimônica e teleológico, que é viver sendo quem é em harmonia com os próprios dons, talentos e potencialidades. É uma vida em manifesta excelência de si, em encaixe cósmico, em plenitude vital. Felicidade é a existência virtuosa e equilibrada no encaixe teleológico consigo mesma.



[1] Para Aristóteles, a eudaimonia significa atingir o potencial pleno de realização de cada um. A felicidade é a meta da vida humana, tudo o que fazemos tem como motivo principal a busca da eudaimonia, que é o encaixe ético ao cosmos.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Modernidade Líquida

Modernidade Líquida
Para Zigmunt Bauman (1925-2017) entender os dias atuais é se inserir em um processo de reflexão que exige uma certa exclusão conceitual da realidade para a entender e só então atuar/dialogar/existir com uma certa noção de para onde ela está indo e como vamos nós com ela nesse seu destino, que de certo modo e maneira é nosso destino também. “A Sociedade é fruto direto e indireto da atuação do humano nela e sobre ela para fazer-lhe ser o que é”
Modernidade líquida é um conceito elaborado por Bauman para pensar e estudar a estruturação organizacional e relacional do mundo moderno e contemporâneo. Veremos que modernidade líquida não corresponde diretamente a pós modernidade, está relacionado mas não é igual. Modernidade Líquida é caracterizada pela fluidez das relações e do mundo contemporâneo. Modernidade Líquida é conceito sócio histórico de análise da realidade existencial humana surgida da ampla centralização no cientificismo e no capitalismo. Modernidade Líquida se contrapõe ao conceito de modernidade sólida, que se caracteriza pela fixidez/rigidez estrutural das instituições (família, escola, religião, comunidade, Estado), pois ela se caracteriza pela lógica agora, do consumo, lógica do gozo e da artificialidade, é a lógica do fluir para existir (mesmo que isso significa transformar as estruturações institucionais).
Karl Marx caracterizava a modernidade como o processo histórico que derreteria todas as instituições: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. O filosofo alemão já preconizava que a estruturação social de seus dias significava o fim dos referenciais existenciais que significaria fazer da vida um projeto individual, que tinha por estrutura a própria condição material e econômica do sujeito, na qual fica alienado e subjugado, visto que perde de vez as possibilidades institucionais e estruturais de transformar a própria realidade. Essa existência, como projeto individual, é direcionada ao consumo, e tem por efeito transformar as relações sociais em mercadorias, que por sua vez, transforma a própria identidade pessoal/existencial/social em mercadoria. Ora, se o trabalho que visa a sobrevivência (modos de produção=motor da história) se torna cada vez mais fluído, líquido, se amoldando as necessidades de mercado em empregos temporários, trabalhos de meia jornada, trabalhos noturnos, trabalhos em casa (home office), especializações e adaptações profissionais; e consequentemente fazendo do trabalhador um ser fluído e sem identidade profissional[1]. O trabalhador fragmentado pelas relações de produção da própria sobrevivência irá se fragmentar ainda mais em suas relações de existência e convivência.
Para Zigmunt Bauman isso já ocorre. As relações pessoais contemporâneas são caracterizadas pelas conexões (que são plurais, frágeis, fluídas, desconectáveis sem perdas e custos). As conexões transformam e reforçam a existência do ser como mercadoria, que pode ser consumido e depois jogado no lixo (significa ser excluído por não ter mais utilidade). As conexões são frágeis porque os sujeitos lidam com um mundo de consumo e de opções para consumo. A existência se perfaz em usufruir de um cardápio com opções (pessoas) de consumo e curtição. Por exemplo, na modernidade líquida o sexo não é união. Sexo é curtição. Conexão sexual é a acumulação de sensações, acumulação de prazeres, acumulação de satisfações instintivas individuais sem muita responsabilidade e comprometimento com o outro.
Modernidade líquida não é um conceito análogo a pós modernidade. Modernidade líquida é um conceito crítico (analítico) da pós-modernidade. Para nosso autor, a pós modernidade é uma remodelação, uma reforma, no edifício da modernidade. Ela faz isso sem mexer em suas bases e estruturas (capitalismo). Reforma que reforça seu poder estrutural, mantendo a estruturação capitalista moderna e modificando as relações nessa estrutura social. Na “Pós” não há uma superação de nada, o que há é uma sequência continua da modernidade sólida para a modernidade líquida, com algumas características diferenciadoras, mas com o núcleo (estrutura) capitalista intocável. A proposta do capitalismo moderno era a de produzir mercadorias, agora a proposta do capitalismo pós moderno é de consumir mercadorias, mesmo que o sujeito se converta ele mesmo em uma.
O conceito “líquido” de Bauman cria ramificações conceituais (obras do autor) como “Modernidade Líquida”, “Medo Líquido”, “Amor Líquido”, “Vida Líquida”, “Vigilância Líquida”, “A Cultura no Mundo Líquido Moderno”, “Tempos Líquidos” e tantas outras que possam representar uma liquidez estrutural (oposição direta as sociedades sólidas ou fixas). Em “Amor Líquido”, por exemplo, trata da fragilidade dos laços humanos, das novas regras de relacionamento em que se prioriza a satisfação imediata em detrimento de qualquer projeto de vida ou respeito e reconhecimento pelo outro. A perda da qualidade das relações recompensada com uma busca de quantidades absurdas de parceiros. A quantidade de amigos que as pessoas costumam ter em redes sociais que são números que ultrapassam 300 ou 500 amigos, algo que seria irreal para uma convivência cotidiana de qualidade. As relações se desenvolvem com aquilo que já se tem, não com aquilo que ambos estão a fim de ter. Não se arrisca mais a amar sinceramente, pois isso significaria se entregar.
O que é preciso pontuar é que esse conceito de líquido não é somente resultado de uma ação estrutural histórica; não é, também, resultado negativo do processo de capitalização da sociedade e convivência humana. Liquido é o resultado direto da ação e determinação humana feita a partir das mudanças e realidades existências que se lhe apresentam, e das escolhas que faz mediante essa mesma realidade, e assim, sua realidade social, em seus aspectos positivos e negativos, é resultado direto de sua ação. E a solução para tal, se é que há, ou se é que seja coerente pensar em solução para com ela. Seria a de podermos compreender e entender seus processos históricos sociais de formação, pois assim já teremos a possibilidade de deliberar sobre a nossa própria existência nessa conjuntura social, o que já nos faz ser e viver melhor que a imensa maioria das pessoas que fazem o que todos fazemos, mas sem nenhuma consciência (ou muito pouca) de suas determinações existenciais.



[1] No mundo líquido não se trabalha “para aposentar”, mas busca-se o aprendizado permanente em diversos cargos de diversas empregas durante toda a carreira.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Materialismo Dialético


Materialismo Dialético (Karl Marx)
O trabalho de Karl Marx (1818-1883) se fundamenta em analisar os mecanismos da sociedade capitalista, quais as condições históricas e sociais de sua produção e suas motivações transformadoras. Fundamentando suas ideias a partir dos conceitos dialéticos de Hegel (1770-1831), que o ajuda a construir sua concepção materialista e dialética da história. Pois para Marx a história não é uma força do espírito que conduz o mundo, e sim um elemento concreto no qual os seres humanos reais produzem e agem em meio as contradições sociais na qual constroem e transformam a realidade enquanto produzem a si mesmo. Em sua obra Ideologia Alemã, Marx formula uma crítica a filosofia idealista predominante, a qual explicava o mundo e o homem pelo autodesenvolvimento das ideias e da consciência, que ele questionava como falsa consciência ”Não veio à mente de nenhum desses filósofos procurar o nexo existente entre a filosofia alemã e a realidade alemã, o nexo entre a crítica e seu próprio ambiente material”, ele mostra que a filosofia e as ideias desenvolvidas em uma sociedade são inseparáveis da maneira como os homens produzem seus meios de vida em um determinado contexto histórico. “O idealismo explica a prática segundo a ideia, o marxismo explica a formação das ideias segundo a prática material” e assim, “Não é a consciência que determina a vida, mas é a vida que determina a consciência”, e por fim diz: “Ao contrário da filosofia alemã, que desce do Céu à Terra, aqui é da Terra que se passa para o Céu. Em outras palavras, não partimos do que os homens dizem, imaginam e representam[...] mas partimos dos homens como eles são na vida real” (Ideologia Alemã). Marx mostra que o homem transforma a si mesmo e a sociedade pelo trabalho e pelas relações sociais que estabelece com os outros, que a história é feita pela luta de classes sociais, por grupos contrapostos que disputam o mesmo espaço na sociedade. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe também dos meios de produção intelectual, “as relações legais e as formas políticas não podem ser explicadas por si ou como provenientes do assim chamado desenvolvimento geral da mente humana, mas, ao contrário, elas se originam das condições materiais da vida” (Contribuição à Crítica da Economia Política).
Marx desenvolve seu conceito filosófico materialista a partir, mas não somente, do filosofo materialista Ludwig Feuerbach (1804-1872), que desenvolveu sua filosofia para explicar as ideias como um processo natural e biológico da vida material, e assim, as ideias não passavam de reflexo das necessidades materiais dos homens. Já em Marx não serão apenas produtos naturais da realidade, mas fatos históricos, que por sua vez são fruto do trabalho e resultado da criação de um continuo processo histórico de sobrevivência. É o entrelaçamento dialético e consciente do sujeito e do objeto que forma a vida humana e social, a realidade material e a história feita pelos homens não podem andar separadas, que se determinam reciprocamente e assumem diversas formas ao longo do tempo e dos lugares. Por isso, para entender o pensamento dos homens e o subsequente processo de desenvolvimento dos mesmos, é preciso examinar “os modos de produção”, pois é nas forças produtivas (o dinheiro, as ferramentas, as máquinas, a ciência, a tecnologia, a mão de obra, a organização do trabalho) e as relações de produção (as expressões jurídicas, políticas, filosóficas, culturais que se estabelecem nos processos produtivos) que se realiza a estruturação do pensamento. Desse modo, as forças de produção (a estrutura material) e as relações sociais de produção (a superestrutura ideológica) são determinantes para todo o processo relacional e todo desenvolvimento ideológico e filosófico subsequente. As estruturas relacionais e existenciais determinam a existência da sociedade subjetiva e objetivamente. Por isso ele diz que os modos de produção que se seguiram na história da humanidade, e as subsequentes lutas de classes derivadas dele, é o que movimentou a história e todo o seu processo de infraestrutura e superestrutura. Em o Capital Marx busca a compreensão cientifica e a explicação da estrutura econômica da sociedade. Ao trabalhar o homem transforma a natureza, cria a si próprio e constitui um mundo humano e social (a vida de se constitui de elos biológicos, econômicos, sociais, políticos, culturais que produzem e reproduzem a si mesmos e criam socialmente os próprios meios de vida e existência humana). A filosofia de Marx é materialista, mas é também entrelaçada com a dimensão histórica e dialética, que produz e se reproduz na própria realidade material social.
A filosofia dialética (Hegel) permite entender o real com suas contradições, os movimentos, as lutas de forças opostas que geram as mudanças e a permanente superação da história. Conceito esse que segundo Marx “anda de cabeça para baixo. É preciso colocá-lo sobre os pés para descobrir o núcleo racional encoberto sob a envoltura mística”. A história e a dialética em Marx não evaporam no Espírito, mas se realizam na materialidade da vida humana e social das classes trabalhadoras que lutam contra o Capital (os burgueses e sua filosofia idealista). A filosofia de Marx não quer somente compreender a realidade social e histórica, mas também mostra seu movimento histórico continuo (determinismo histórico) e a transformação subsequente do mundo (a realidade social e econômica e seus processos de busca de sobrevivência). Processo que Marx caracterizava como filosofia da práxis (materialismo histórico dialético), que é o pensamento como parte integrante da realidade que se constitui como pensamento transformador, visto ser um pensamento derivado para realidade material, transformado pela mesma e transformador da mesma (O ambiente faz o homem tanto quanto o homem faz o ambiente). Por isso, não há sistemas econômicos, organizações sociais e ideias imutáveis, pois tudo é histórico, dinâmico, contraditório e superável. Também por isso, a filosofia não é uma atividade separada da realidade, mas uma atividade de transformação (ela é consequência da realidade e de suas contradições) que deriva das necessidades da própria realidade que a realizou, e Marx decreta: “Até agora os filósofos interpretaram o mundo de diferentes maneiras, o que importa é transformá-lo”. Não por menos que Karl Marx inaugura uma filosofia que é cientifica-concreta (sem ser positiva) e político-projetiva (ser idealista). Não por menos sua ação analítica histórica na qual postula que: “O sistema capitalista implantado pela burguesia produz imensas riquezas ao preço da violência, da disseminação da miséria e da devastação da natureza, esgotando as principais fontes de riquezas: a terra e o trabalhador”.
É desse preâmbulo que deveria partir a análise da produção filosófica, cientifica e econômica de Karl Marx. Analisar o conteúdo sem o seu contexto filosófico, ou analisar o conteúdo sem a intenção filosófica do autor, ou também, analisar o conteúdo por terceiros que o utilizam para legitimar uma ou muitas propostas filosóficas utópicas (marxismos) que o próprio autor não aceitava. Olhar Karl Marx e seu materialismo filosófico é olhar um homem histórico e sua busca de solucionar problemas da sua realidade social e econômica. Ele não parte de suposições meramente teóricas e sim de análises cientificas filosóficas de realidades sociais e economicamente estruturadas, e nós precisamos levar em conta tais realidades para pensar sua produção cientifica e filosófica. Isso seria usarmos do método materialista dialético para compreender as origens e motivações do processo de produção do materialismo histórico dialético. O diálogo com o autor e sua realidade social e econômica ajuda a entender a sua produção cientifica. Assim, Marx não é marxista. As filosofias marxistas não levam em conta a obra A Ideologia Alemã na qual apresenta a transformação histórica como um processo determinista material e não como um determinismo ideológico como proposto em muitas outras filosofias decorrentes de seu pensamento.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O Bom Preconceito: o preconceito de se ter preconceitos

O Bom Preconceito: o preconceito de se ter preconceitos

Esse texto tem por intenção dialogar e expandir o tema do preconceito e suas múltiplas e paradoxais questões complicadoras do seu entendimento e abordagem. Usarei como referência central o texto/livro Em Defesa do Preconceito de Theodore Dalrymple, onde ele amplia a discussão do tema e lança luzes sobre o mesmo, e nos desafia a enfrentar esse tema tão arguto e complicado, e que nos convida a enfrentar nossos próprios preconceitos, o ato mais difícil de se executar.  
A primeira coisa que precisamos pensar é que o nosso norte passou a ser não ter preconceito nenhum. A ideia é de que sem preconceitos conviver é melhor, mas a ideia de que sem preconceito é melhor, é contraditória em si, visto que é preciso um pré-conceito para fazer isso. A conclusão de que sem preconceito temos uma convivência e existência mais livre e potencialmente melhor é contraditória, pois faz isso ser um preconceito. Também temos o ceticismo metafisico (nulidade dos valores ideais), que consiste em avaliar as implicações que determinam negativamente a forma de decidir e conduzir à vida  (negando-a). Porém esse ceticismo é uma armadilha, pois não avalia tudo, mas o que lhe convém. Avalia a partir dos próprios pressupostos não metafísicos, e assim não é cético, é seletivo. O estudo da história está sujeito ao pesquisador da história, e, esse estudo nos diz aquilo que queremos ouvir. Usamos a história para validar a nós mesmos ou o que esperamos encontrar ao pesquisar (os preconceitos já existentes). O estudo/pesquisa é uma reprodução do mundo, e tendemos a negativar o passado para legitimar o presente e produzir um preconceito validador do futuro. Olhando isso por uma corrente materialista podemos dizer que somos átomos morais a nos mover no vácuo, o que significa dizer que somos matéria/células/órgãos que apreende o mundo e atribuem valores a ele e que faz desses valores seus preconceitos para se relacionar com ele e com tudo que envolva sua existência nele.
Em todos os meios sociais (mídia, família, escola) temos visto a prática de uma pedagogia dita não preconceituosa, que significa não limitar a criança, não impor obstáculos ao seu desenvolvimento. Só que o que se ignora é que liberar a criança é não permitir a ela uma reflexão racional e sensata sobre o porquê de tudo ser como é, e não limitar, instruir, controlar, direcionar é castrar (limitar seu desenvolvimento). A criança não está livre de preconceitos apenas porque ficou livre dos preconceitos de seus pais, ela se tornará escrava de seus próprios preconceitos, e o pior é que esses preconceitos serão construídos sem orientação, sem a prática da vivência e experiência dos mais velhos. É preciso entender que a abstenção de se incutir preconceitos é geradora de efeitos muito piores do que fazê-los, ainda que fossem ou sejam feitos de maneira agressiva ou irracional, o fato de serem feitos é melhor do que não o serem. É preciso entender que o solo que sustenta o preconceito será sempre necessário, ainda que o preconceito seja alterado, para andar sobre o chão é preconceituosamente que se anda, e assim, o ideal é que haja consciência disso, que haja consciência para fazer isso.
Para prosseguir com a reflexão é preciso fazer uma definição do que seja Preconceito e quais as suas possíveis extensões. Uma compreensão geral de preconceito é entende-lo como um comportamento automático, um agir que de tão praticado se torna um hábito. Preconceitos (práticas de vida) são bons e maus, e se intercalam na história, não há convivência sem preconceitos. Preconceitos são noções orientadoras do agir que de tão práticas e praticadas se tornam em um jeito natural de ser e de agir. Temos como exemplo que há duas décadas o casamento era obrigatório em caso de gravidez precoce, tanto por parte dos pais da moça como pelos pais do rapaz, é fácil verificar que em nossos dias já não é mais assim. temos também que há 30 anos atrás as pessoas fumavam dentro de casa ou de qualquer outro estabelecimento (mercado, bar, restaurante, trabalho).
Se você tomar a compreensão do último parágrafo como referência poderá refletir comigo que na verdade não lutamos contra um preconceito qualquer, solto por ai. Nossa busca é de legitimar os nossos preconceitos em detrimento de outros preconceitos que possam colocar os nossos em risco, em conflito ou em deterioração.
Uma consequência direta da luta mundial contra o preconceito, todo e qualquer tipo de preconceito, foi a conversão do convencional em transgressor, a tradição (que é preconceito) familiar, social e cultural se tornaram em modelos não positivos de convivência. O preconceito afirmativo agora é ser transgressor (criar regras que se adequem a própria personalidade, desejos e interesses do individuo), e transgredir o convencional é agir positivamente, só que “o desejo de se furtar a uma convenção é, em si mesmo, uma convenção”, e na busca de se fugir do gato corre-se junto com o rato. Toda escolha é o resultado de uma produção conceitual, mas não basta a racionalização de conceitos. Pois a racionalidade não é o único componente necessário para a formulação de conceitos e pré-conceitos. Se as escolhas forem supremamente racionais perderão o poder real dos seus efeitos, visto que a racionalidade por si só não é suficiente, não é competente, não dá conta do humano e de toda a sua complexidade existencial; além de ser, a racionalidade, uma prática sempre tendente ao egocentrismo e preconceitos individualizantes.
Preconceitos são preceitos, conceitos e valores norteadores do próprio pensar, sentir e agir. Eles antecedem estes três em suas manifestações. Dito isto, temos que pensar uma outra questão da produção de conhecimento. Por mais racional que seja o conhecimento, e que esteja estabelecido como verdadeiro, é preciso uma autoridade (saber comprovado e saber autorizador) para que o mesmo se torne uma referência conceitual. O postulado contemporâneo de que todas as opiniões são válidas invalida o conceito racional/científico de produção do saber. A armadilha de nossa época “a busca de verdades em detrimento do convencional” na negação do que foi estabelecido pela tradição (tida como arcaica, opressora e preconceituosa), se contradiz, pois nega a  tradição o direito de ser um um preconceito valido. A consequência direta dessa atitude são as construções sem alicerces.
Preconceitos que surgem tendo como referência o sujeito que os preconiza. Isso faz parte do advento do individualismo racional, o indivíduo usa a filosofia para legitimar e legalizar o seu querer. O desejo pessoal se sobrepõe a qualquer outro, o preconceito é elaborado no e pelo indivíduo (singular), tudo que o contrarie é perverso. O mal é tudo ou todo que contrarie os preconceitos subjacentes no ser. Portanto, vale perguntar: Como criar uma comum-unidade se os princípios primeiros, gerais e sociais são autos de tudo, são determinações pessoais? O decente é agora de cunho singular, fruto de uma racionalidade prática e não de uma racionalidade racional ou racionalidade social/convencional.
O direito a todos com direito gera um paradoxo de direitos, visto que os direitos se fazem deveres que se excluem na possibilidade de realização de direito a todos. Como sustentar a máxima “Quero, portanto, tenho direito” para todos? Quanto mais radical o individualismo, mais paradoxal, e quanto mais presente, maior a sua autoridade sobre o querer e o ser do indivíduo. A falta de autoridades intermediárias, tais como a família, a igreja ou a escola pode a até prevenir de alguns males potenciais presentes nessas instituições, contudo, sua exclusão abre espaço para outras estruturas que veem para substituir e estabelecer novas, as quais desconhecemos e não podemos prever suas consequências. O que não significa que serão negativas, e certamente não serão totalmente positivas.
O fato histórico potencializador dessas transformações conceituais é o de que por ser certas discriminações absolutamente negativas (como por exemplo o preconceito racial e preconceito contra a mulher), não deveria significar dizer que todas discriminações sejam ruins. Discriminar é eleger/preferir/optar, e isso nos possibilita um aprimoramento existencial. É preciso trilhar esse caminho humano que nos humaniza. Sem discriminação de qualquer tipo, qualquer tipo de ação (como estupro e pedofilia) seriam válidos. A rejeição do preconceito não é boa em si mesma. A rejeição do negativo não é positiva. O reconhecimento da condição humana (boa e má) e o que se faz a partir disso que determina se o rejeitar é positivo. Filosofar é construir o pensar, é construir o saber, é decidir racionalmente (não somente) na convivência quais as ampliações e quais as limitações para a mesma. Isso é simples de justificar. A mente humana é uma formação cognitiva condicionada e estruturada ao seu meio de pertencimento. Logo, as suas determinações são determinadas por seu lugar de pertencimento, e, logo, os preconceitos que as envolvem ao mesmo tempo a determinam. Assim, a noção de verdade está subjugada as pressuposições e preconceitos do lugar onde é emitida. E, por isso, construir modelos sociais e vivenciais sem preconceitos se faz em preconceitos que afirmam não existir preconceitos. Não reconhecer autoridade é, levado a consequências extremas, não reconhecer a si. Pois subjugar o poder por seu mau uso é deslegitimar a condição existencial que permite fazer a análise. E em última instancia é colocar a si mesmo como a maior e mais absoluta autoridade. O que nos leva não a negar a autoridade, e sim legitimá-la somente a partir de si. A completa rejeição da autoridade[1] (qualquer uma) é egoísmo. Na matriz da convivência social (formatada em preconceitos) há positividades inerentes ao convívio humano, se se nega essa matriz a convivência se sujeita ao indivíduo, o que não é positivo para a sociedade. Seus preconceitos são para si mesmo, em favor de si, jamais do todo, visto que nega a autoridade e benevolência da convivência com o outro.
Há terríveis efeitos sociais ao se abandonar certos preconceitos. A escolha é sempre livre, até que se esteja (inconscientemente) preso a predisposições de gosto/preferência/interesse. A liberdade escoa quando abdicamos do próprio ato de escolher e suas motivações. No fundo queremos liberdade para nós e encarceramento do outro (de preferência em nós). O melhor dos mundos é o que eu tudo posso e o outro é o meio/caminho para eu tudo poder no meu querer. Algo é o que é porque alguém ou uma autoridade (pessoa ou não), o determinou. Todos os “algos” foram assim constituídos. Se negarmos a autoridade, negamos junto a validade de todas as coisas, inclusive qualquer que se dispõem em questionar a autoridade faz com que autoridade? Ao estruturar um pensamento que desvalida qualquer estrutura como sendo válida, faz se dessa construção uma contra estrutura, logo uma validação intelectual daquilo que se busca desvalidar. Como o exercício do julgamento (preconceitos) é inevitável, os preconceitos são necessários e salutares. Até porque sem preconceito não há virtudes. Não podemos despir-nos do que o mundo nos deu, perceber um nu só é possível por termos vestido nos com o mundo. Qual critério moral usamos para definir algo como bom ou ruim; o critério é preconceito e sem preconceito não é possível definir o melhor. Assim, é preciso aprender a ser preconceituoso. Ser preconceito não é pensar ou agir com preconceito (racial, gênero, econômico ou social), mas é saber que o preconceito é uma condição existencial humana e modela seu pensar, sentir e querer. Por isso precisa ser pensado como uma condição sine qua non que precisa ser percebida e aperfeiçoada na prática existencial humana. O preconceito é necessário para a manutenção da mais elementar decência, que foi estabelecida preconceituosamente com consciência e intenção de assim o fazer. Assim, livre-se das conotações negativas da palavra preconceito, e viva sem preconceitos de se ter preconceitos que gerem preconceitos melhoradores da existência e convivência humana. Encerro o texto com a citação de um trecho do livro referência desse texto:
“É preciso ter capacidade de discernimento para saber quando um preconceito deve ser mantido e quando deve ser abandonado. Os preconceitos são como amizades: devem ser mantidos em bom estado. Por vezes os amigos se distanciam, e por vezes o mesmo deve acontecer aos homens diante de certos preconceitos; mas a amizade frequentemente se aprofunda com a idade e a experiência, e o mesmo deve acontecer com alguns preconceitos. Eles são aquilo que dão caráter as pessoas, mantendo-as juntas. Não podemos viver sem eles.”




[1] A importância da autoridade está em se pensar em ter que confiar em uma pessoa que não está habilitada para realizar uma atividade em seu favor. Como pilotar um avião, fazer uma cirurgia do coração, educar seus filhos. É a autoridade que regimenta e capacita a preparação e instrução da correta execução.