segunda-feira, 24 de julho de 2017

O Bom Preconceito: o preconceito de se ter preconceitos

O Bom Preconceito: o preconceito de se ter preconceitos

Esse texto tem por intenção dialogar e expandir o tema do preconceito e suas múltiplas e paradoxais questões complicadoras do seu entendimento e abordagem. Usarei como referência central o texto/livro Em Defesa do Preconceito de Theodore Dalrymple, onde ele amplia a discussão do tema e lança luzes sobre o mesmo, e nos desafia a enfrentar esse tema tão arguto e complicado, e que nos convida a enfrentar nossos próprios preconceitos, o ato mais difícil de se executar.  
A primeira coisa que precisamos pensar é que o nosso norte passou a ser não ter preconceito nenhum. A ideia é de que sem preconceitos conviver é melhor, mas a ideia de que sem preconceito é melhor, é contraditória em si, visto que é preciso um pré-conceito para fazer isso. A conclusão de que sem preconceito temos uma convivência e existência mais livre e potencialmente melhor é contraditória, pois faz isso ser um preconceito. Também temos o ceticismo metafisico (nulidade dos valores ideais), que consiste em avaliar as implicações que determinam negativamente a forma de decidir e conduzir à vida  (negando-a). Porém esse ceticismo é uma armadilha, pois não avalia tudo, mas o que lhe convém. Avalia a partir dos próprios pressupostos não metafísicos, e assim não é cético, é seletivo. O estudo da história está sujeito ao pesquisador da história, e, esse estudo nos diz aquilo que queremos ouvir. Usamos a história para validar a nós mesmos ou o que esperamos encontrar ao pesquisar (os preconceitos já existentes). O estudo/pesquisa é uma reprodução do mundo, e tendemos a negativar o passado para legitimar o presente e produzir um preconceito validador do futuro. Olhando isso por uma corrente materialista podemos dizer que somos átomos morais a nos mover no vácuo, o que significa dizer que somos matéria/células/órgãos que apreende o mundo e atribuem valores a ele e que faz desses valores seus preconceitos para se relacionar com ele e com tudo que envolva sua existência nele.
Em todos os meios sociais (mídia, família, escola) temos visto a prática de uma pedagogia dita não preconceituosa, que significa não limitar a criança, não impor obstáculos ao seu desenvolvimento. Só que o que se ignora é que liberar a criança é não permitir a ela uma reflexão racional e sensata sobre o porquê de tudo ser como é, e não limitar, instruir, controlar, direcionar é castrar (limitar seu desenvolvimento). A criança não está livre de preconceitos apenas porque ficou livre dos preconceitos de seus pais, ela se tornará escrava de seus próprios preconceitos, e o pior é que esses preconceitos serão construídos sem orientação, sem a prática da vivência e experiência dos mais velhos. É preciso entender que a abstenção de se incutir preconceitos é geradora de efeitos muito piores do que fazê-los, ainda que fossem ou sejam feitos de maneira agressiva ou irracional, o fato de serem feitos é melhor do que não o serem. É preciso entender que o solo que sustenta o preconceito será sempre necessário, ainda que o preconceito seja alterado, para andar sobre o chão é preconceituosamente que se anda, e assim, o ideal é que haja consciência disso, que haja consciência para fazer isso.
Para prosseguir com a reflexão é preciso fazer uma definição do que seja Preconceito e quais as suas possíveis extensões. Uma compreensão geral de preconceito é entende-lo como um comportamento automático, um agir que de tão praticado se torna um hábito. Preconceitos (práticas de vida) são bons e maus, e se intercalam na história, não há convivência sem preconceitos. Preconceitos são noções orientadoras do agir que de tão práticas e praticadas se tornam em um jeito natural de ser e de agir. Temos como exemplo que há duas décadas o casamento era obrigatório em caso de gravidez precoce, tanto por parte dos pais da moça como pelos pais do rapaz, é fácil verificar que em nossos dias já não é mais assim. temos também que há 30 anos atrás as pessoas fumavam dentro de casa ou de qualquer outro estabelecimento (mercado, bar, restaurante, trabalho).
Se você tomar a compreensão do último parágrafo como referência poderá refletir comigo que na verdade não lutamos contra um preconceito qualquer, solto por ai. Nossa busca é de legitimar os nossos preconceitos em detrimento de outros preconceitos que possam colocar os nossos em risco, em conflito ou em deterioração.
Uma consequência direta da luta mundial contra o preconceito, todo e qualquer tipo de preconceito, foi a conversão do convencional em transgressor, a tradição (que é preconceito) familiar, social e cultural se tornaram em modelos não positivos de convivência. O preconceito afirmativo agora é ser transgressor (criar regras que se adequem a própria personalidade, desejos e interesses do individuo), e transgredir o convencional é agir positivamente, só que “o desejo de se furtar a uma convenção é, em si mesmo, uma convenção”, e na busca de se fugir do gato corre-se junto com o rato. Toda escolha é o resultado de uma produção conceitual, mas não basta a racionalização de conceitos. Pois a racionalidade não é o único componente necessário para a formulação de conceitos e pré-conceitos. Se as escolhas forem supremamente racionais perderão o poder real dos seus efeitos, visto que a racionalidade por si só não é suficiente, não é competente, não dá conta do humano e de toda a sua complexidade existencial; além de ser, a racionalidade, uma prática sempre tendente ao egocentrismo e preconceitos individualizantes.
Preconceitos são preceitos, conceitos e valores norteadores do próprio pensar, sentir e agir. Eles antecedem estes três em suas manifestações. Dito isto, temos que pensar uma outra questão da produção de conhecimento. Por mais racional que seja o conhecimento, e que esteja estabelecido como verdadeiro, é preciso uma autoridade (saber comprovado e saber autorizador) para que o mesmo se torne uma referência conceitual. O postulado contemporâneo de que todas as opiniões são válidas invalida o conceito racional/científico de produção do saber. A armadilha de nossa época “a busca de verdades em detrimento do convencional” na negação do que foi estabelecido pela tradição (tida como arcaica, opressora e preconceituosa), se contradiz, pois nega a  tradição o direito de ser um um preconceito valido. A consequência direta dessa atitude são as construções sem alicerces.
Preconceitos que surgem tendo como referência o sujeito que os preconiza. Isso faz parte do advento do individualismo racional, o indivíduo usa a filosofia para legitimar e legalizar o seu querer. O desejo pessoal se sobrepõe a qualquer outro, o preconceito é elaborado no e pelo indivíduo (singular), tudo que o contrarie é perverso. O mal é tudo ou todo que contrarie os preconceitos subjacentes no ser. Portanto, vale perguntar: Como criar uma comum-unidade se os princípios primeiros, gerais e sociais são autos de tudo, são determinações pessoais? O decente é agora de cunho singular, fruto de uma racionalidade prática e não de uma racionalidade racional ou racionalidade social/convencional.
O direito a todos com direito gera um paradoxo de direitos, visto que os direitos se fazem deveres que se excluem na possibilidade de realização de direito a todos. Como sustentar a máxima “Quero, portanto, tenho direito” para todos? Quanto mais radical o individualismo, mais paradoxal, e quanto mais presente, maior a sua autoridade sobre o querer e o ser do indivíduo. A falta de autoridades intermediárias, tais como a família, a igreja ou a escola pode a até prevenir de alguns males potenciais presentes nessas instituições, contudo, sua exclusão abre espaço para outras estruturas que veem para substituir e estabelecer novas, as quais desconhecemos e não podemos prever suas consequências. O que não significa que serão negativas, e certamente não serão totalmente positivas.
O fato histórico potencializador dessas transformações conceituais é o de que por ser certas discriminações absolutamente negativas (como por exemplo o preconceito racial e preconceito contra a mulher), não deveria significar dizer que todas discriminações sejam ruins. Discriminar é eleger/preferir/optar, e isso nos possibilita um aprimoramento existencial. É preciso trilhar esse caminho humano que nos humaniza. Sem discriminação de qualquer tipo, qualquer tipo de ação (como estupro e pedofilia) seriam válidos. A rejeição do preconceito não é boa em si mesma. A rejeição do negativo não é positiva. O reconhecimento da condição humana (boa e má) e o que se faz a partir disso que determina se o rejeitar é positivo. Filosofar é construir o pensar, é construir o saber, é decidir racionalmente (não somente) na convivência quais as ampliações e quais as limitações para a mesma. Isso é simples de justificar. A mente humana é uma formação cognitiva condicionada e estruturada ao seu meio de pertencimento. Logo, as suas determinações são determinadas por seu lugar de pertencimento, e, logo, os preconceitos que as envolvem ao mesmo tempo a determinam. Assim, a noção de verdade está subjugada as pressuposições e preconceitos do lugar onde é emitida. E, por isso, construir modelos sociais e vivenciais sem preconceitos se faz em preconceitos que afirmam não existir preconceitos. Não reconhecer autoridade é, levado a consequências extremas, não reconhecer a si. Pois subjugar o poder por seu mau uso é deslegitimar a condição existencial que permite fazer a análise. E em última instancia é colocar a si mesmo como a maior e mais absoluta autoridade. O que nos leva não a negar a autoridade, e sim legitimá-la somente a partir de si. A completa rejeição da autoridade[1] (qualquer uma) é egoísmo. Na matriz da convivência social (formatada em preconceitos) há positividades inerentes ao convívio humano, se se nega essa matriz a convivência se sujeita ao indivíduo, o que não é positivo para a sociedade. Seus preconceitos são para si mesmo, em favor de si, jamais do todo, visto que nega a autoridade e benevolência da convivência com o outro.
Há terríveis efeitos sociais ao se abandonar certos preconceitos. A escolha é sempre livre, até que se esteja (inconscientemente) preso a predisposições de gosto/preferência/interesse. A liberdade escoa quando abdicamos do próprio ato de escolher e suas motivações. No fundo queremos liberdade para nós e encarceramento do outro (de preferência em nós). O melhor dos mundos é o que eu tudo posso e o outro é o meio/caminho para eu tudo poder no meu querer. Algo é o que é porque alguém ou uma autoridade (pessoa ou não), o determinou. Todos os “algos” foram assim constituídos. Se negarmos a autoridade, negamos junto a validade de todas as coisas, inclusive qualquer que se dispõem em questionar a autoridade faz com que autoridade? Ao estruturar um pensamento que desvalida qualquer estrutura como sendo válida, faz se dessa construção uma contra estrutura, logo uma validação intelectual daquilo que se busca desvalidar. Como o exercício do julgamento (preconceitos) é inevitável, os preconceitos são necessários e salutares. Até porque sem preconceito não há virtudes. Não podemos despir-nos do que o mundo nos deu, perceber um nu só é possível por termos vestido nos com o mundo. Qual critério moral usamos para definir algo como bom ou ruim; o critério é preconceito e sem preconceito não é possível definir o melhor. Assim, é preciso aprender a ser preconceituoso. Ser preconceito não é pensar ou agir com preconceito (racial, gênero, econômico ou social), mas é saber que o preconceito é uma condição existencial humana e modela seu pensar, sentir e querer. Por isso precisa ser pensado como uma condição sine qua non que precisa ser percebida e aperfeiçoada na prática existencial humana. O preconceito é necessário para a manutenção da mais elementar decência, que foi estabelecida preconceituosamente com consciência e intenção de assim o fazer. Assim, livre-se das conotações negativas da palavra preconceito, e viva sem preconceitos de se ter preconceitos que gerem preconceitos melhoradores da existência e convivência humana. Encerro o texto com a citação de um trecho do livro referência desse texto:
“É preciso ter capacidade de discernimento para saber quando um preconceito deve ser mantido e quando deve ser abandonado. Os preconceitos são como amizades: devem ser mantidos em bom estado. Por vezes os amigos se distanciam, e por vezes o mesmo deve acontecer aos homens diante de certos preconceitos; mas a amizade frequentemente se aprofunda com a idade e a experiência, e o mesmo deve acontecer com alguns preconceitos. Eles são aquilo que dão caráter as pessoas, mantendo-as juntas. Não podemos viver sem eles.”




[1] A importância da autoridade está em se pensar em ter que confiar em uma pessoa que não está habilitada para realizar uma atividade em seu favor. Como pilotar um avião, fazer uma cirurgia do coração, educar seus filhos. É a autoridade que regimenta e capacita a preparação e instrução da correta execução.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Reflexões sobre Moral e Ética

Reflexões sobre Moral e Ética

O que vem a ser moral? Ou ser uma pessoa moral? Ou quando dizemos para alguém: tem à moral? (geralmente interpelação a fazer algo). A questão é que sempre fazemos grande confusão ao que vem a ser moral e normalmente a confundimos com a ética. Essa reflexão tem por objetivo discorrer sobre isso, com a finalidade de apresentar uma sucinta clarificação, não definitiva, sobre o assunto.
Na dinâmica equação da vivência/convivência a primeira pessoa com quem convivemos é conosco mesmo, qualquer elaboração de ideias, palavras e falas, é antes de tudo um evento de nós para nós mesmos. É um acontecimento interno que se exterioriza, ou não, no mundo. Assim, somos construtores de realidades que em sua maioria o mundo nem percebe que existem, realidades que por serem existente somente em nós mesmos passam pelo crivo valorativo (bem/mal, certo/errado) existente em nós mesmos, e que somente podem ser valorados por outros se forem por nós externalizados (pela fala, escrita ou outro meio).
Então a primeira pessoa a valorar, censurar, aprovar/reprovar nossas ideias, pensamentos, vontades, desejos somos nós mesmos. Esse conjunto valorativo de nós para nós mesmos é o que designamos de moral, que é a valoração que nós mesmos fazemos dos nossos pensamentos e ações com interação conosco e com o mundo.
Por exemplo, Platão conta nos a história do anel de Giges:

Giges era um pastor que morava na região da Lídia. Após uma tempestade, seguida de um tremor de terra, o chão se abriu e formou uma larga cratera onde ele apascentava seu rebanho.

Surpreso e curioso, o pastor desceu até a cratera e descobriu, entre outras coisas, um cavalo de bronze, cheio de buracos através dos quais enfiou a cabeça e viu um grande homem nu que parecia estar morto.

Ao avistar um belo anel de ouro na mão do morto, Giges o tirou e tratou de fugir logo dali. Mais tarde, reunindo-se com os outros pastores para fazer o relatório mensal dos rebanhos ao rei, Giges usou o anel.

Após tomar seu lugar entre os pastores na Assembleia, ele girou por acaso o engaste do anel para o interior da mão e imediatamente tornou-se invisível para os demais presentes.

E foi assim, totalmente invisível, que Giges ouviu os colegas o mencionarem como se ele não estivesse ali. Mexeu novamente o engaste do anel para fora da mão e tornou a ficar visível. Admirado com a descoberta desse poder, Giges repetiu a experiência para confirmar a magia. Seguro de si, sem titubear, ele dirigiu-se ao palácio, seduziu a rainha, matou o rei a apoderou-se do trono.

Platão afirma que, tanto faz se colocarmos um anel desses no dedo de um homem justo e outro no dedo de um homem injusto, o fato é que não encontraremos ninguém com temperamento suficientemente forte para permanecer fiel à justiça e resistir à tentação de se apoderar dos bens e dos benefícios de outrem.

A grande pergunta que a alegoria nos suscita é o que você faria se fosse invisível? Essa é a análise do que é a nossa moral, o que faríamos se pudéssemos fazer o que nos conviesse sem o perigo de censura ou retaliação de outros.
O farol vermelho é um sinal claro de que o carro deve ser parado. Se o condutor para é porque acha justo, correto e certo parar seu veículo ou porque há uma força (legal/social) que obriga que o faça? A questão é refletirmos, moral é o que você decide com você mesmo a fazer ou não. Diferente de Ética, que é o que você decide em interação direta ou não, a fazer ou não. Ação que leva o outro em conta. A moral é uma questão pessoal, você com você mesmo, uma questão de regras de vivência.
Não se pode ignorar que essa moral não veio do nada, ou do além, e mesmo que tivesse vindo teria de ser transmitida a nós. O que nos leva a pensar que a moral é uma assimilação das realidades/verdades do mundo que participamos. A moral cristã, por exemplo, não fará o menor sentido num mundo de valores islâmicos, hindu ou outro. 
A moral é nestes termos o uso da inteligência para definir a melhor vivência, enquanto que a ética, como sua extensão, é o uso da inteligência para definir a melhor convivência. Veja que, na moral definimos quem somos e como convivemos, e nesse movimento da moral para ética construímos nossa relação com o outro. Veja bem, construímos, e assim, se uma relação qualquer que tenhamos não se apresentar como sendo boa, positiva e respeitosa, é porque os parâmetros morais utilizados na convivência não estão alinhados entre si (o que é normal de acontecer) e não está havendo a devida ou necessária atenção/cuidado/racionalização da situação, que poderia levar a uma possível solução ou uma possível aceitação das condições de convivência de forma respeitosa e produtiva. 
Já a Ética é a ação moral em ajustamento com outro em prol de uma melhor convivência. E aqui no campo da Ética não temos um simples diálogo entre moral e moral para construção de uma ética adequada para ambos, pois quando usamos nossa moral, que é uma produção/construção em nós da nossa interação com o mundo, ela já é um reflexo de um pensamento ético presente na estrutura da formação de nosso pensamento moral. Neste sentido para definirmos a ética que melhor se nos ajusta e compreendermos a formação moral que é a nossa, precisamos compreender as concepções éticas clássicas e suas influências sobre a nossa formação moral para então podermos definir qual é, ou ainda, qual seria a ética mais adequada para definir a nossa convivência a partir da nossa pratica moral e existencial.
Não poderíamos começar essa análise ético filosófica senão a partir de Sócrates, e em Sócrates encontramos a definição do ser como norteadora do agir ético por excelência. É na proposta do “conhece te a ti mesmo” que está a existência de maior significado e relevância, visto que todo o exterior não fará sentido sem uma adequação ao conhecimento de si que deveria condicionar o existir e o conviver. Então a Maiêutica é a dialética (Ironia) consigo e com o mundo para o conhecimento da verdade que habita o ser. Assim, a ética é um ajustamento de si a partir das verdades descobertas em si e no mundo para um ajustamento justo, equilibrado e ético ao ser e a convivência na polis, pois aqui a definição do bom viver não está no homem, mas antes na atuação do homem no todo social (Polis Grega), pois a sua moral só será justa e boa se promover um crescimento e engrandecimento da ética da polis grega que definiu a própria moral usada para isso como sendo uma moral ética.
Então vem Platão, aluno de Sócrates, e para ele o mundo é dualista (composto pelo mundo ideal e pelo mundo sensível), onde o mundo ideal é a realidade da alma (divina e infinita) que se sobrepõe ao mundo real (material e finito). O mundo das ideias é referência ética para a definição do existir. É lá que está a bondade, o amor, a justiça, o bem e tudo que seja necessário para uma existência boa e digna. A ética é então um ajustamento existencial a esse mundo soberano que norteia nosso existir moral. Platão e sua filosofia seguem o curso da história e ela nos traz o discípulo mais conhecido de Platão, Aristóteles, que foi um pensador de um proporção e produção imensa. E, segundo ele, a ética é um ajustamento aos desígnios cósmicos determinadores da excelência do próprio existir. Para Aristóteles, assim como em tudo no universo, há uma finalidade (thelos) para todas as coisas existentes e todos os seres viventes. A ética é então a transformação do ato do ser em potência do ser. A vida ética é aquela que atinge a sua finalidade cósmica. O flautista com a flauta, o cirurgião com o bisturi, o professor com o giz, Neymar com a chuteira e assim por diante. Nestes termos o existir moral é um ajustamento ético aos próprios dons, talentos e potencialidades que nos foram dadas, e a avaliação da vida boa, da vida com sentido ou da vida ética é feita tendo por referência as próprias potências, o próprio thelos. A vida boa, a vida ética nada tem a haver com sucesso, prestigio, riqueza e conquistas; ela é um ajustamento moral e ética ao próprio existir cósmico.
Temos ainda no horizonte do pensamento grego a ética desenvolvida pelo pensamento grego helenista, desenvolvido em pleno declínio sócio político grego, que faz com que a reflexão ética deixe de ter seu referencial em alguma realidade exterior divina, ideal, e passa a ter a referência ética em uma esfera pessoal e existencial. A busca não é do mundo ideal ou cósmico, agora a referência ética é a felicidade que se alinha e depende da ataraxia (paz de espírito) para existir. Seja no cinismo, ceticismo, epicurismo ou estoicismo (escolas mais conhecidas e difundidas) a prática filosófica é a de conquistar a ataraxia para experimentar a felicidade. E, nestes termos, a moral se ajusta a uma concepção ética de não permitir que realidades filosóficas e sócio estruturais condicionem o próprio ser, e sim, fazer o próprio ser se adequar moralmente há uma ética que tenha como adequação moral a ataraxia no próprio ser para o alcance da felicidade que agora está posta na esfera pessoal, no alinhamento da conjuntura moral há uma ética determinadora da existência pessoal.
E, por fim[1], temos a ética cristã, e nela a referência central é Deus, o viver moral e ético deve ser alinhado a vontade de Deus, pois a vida boa, o bom viver e existir pleno é uma decorrência de uma existência que se alinha a aquele que criou o ser e tem para ele o caminho da felicidade. A conduta moral então é uma prática existencial como criatura de Deus que tem um propósito para cada filho seu, e assim, o êxito existencial está nesse alinhamento da criatura ao criador, o alinhamento dessa conduta moral há uma conduta ética determinadora do existir como criatura de Deus e filho de Deus.
Assim, concluímos que a moral é a ação que o indivíduo tem na esfera intima e pessoal, ou seja, são as determinações das determinações do seu ser e do seu agir. E que essas determinações morais têm por referência as determinações éticas, que são norteadoras do agir e existir na esfera moral e na esfera relacional, ou seja ética.


[1] Não que o tema se esgota aqui, e sim por pretensão textual do assunto, ética é tema histórico e humano, enquanto convivermos falaremos e produziremos ética, para uma busca constante de adequação da convivência.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Noções e Conceituações sobre o Tempo

Noções e Conceituações sobre o Tempo
“O tempo é equação humana que emana da existência
 tal qual a própria existência. Por ele se mede, se pensa e se entende o existir”

A Filosofia nos possibilita a oportunidade para pensarmos a respeito das estruturas que amoldam e condicionam o nosso pensar e o nosso existir, e muito para além de reflexões vazias ou que visem somente avaliações, notas e vestibulares; podemos tirar proveito para a vida, como saber prático realizador de novas consciências e como ferramenta para novas existências. Analisemos aqui alguns conceitos já elaborados sobre o tempo, sua formação e composição.
O que é o tempo? O tempo é elemento físico e cultural, regulador da vida humana. É acontecimento físico e psicológico/cognitivo, podemos defini-lo, mas nossa definição está sujeita a ele, e do momento que começamos a enuncia-lo até o momento que o enunciamos, ele já avançou sobre nós e modificou nossa condição em si. Então, como definir ou entender o tempo, visto que ele escapa no tempo quando tento o entender, e se modifica ininterruptamente, escapando aos meus sentidos e percepção?  
O tempo cósmico (histórico) é calculado matematicamente sobre o movimento de rotação da terra em torno do sol e de si mesma. É um tempo físico, matemático. Não existe no universo, não existe no planeta, ele existe no homem, existe como construção cognitiva compreensiva dos sucessivos acontecimentos no mundo. Tempo cósmico é a medida de espaço em equação com os acontecimentos nesse espaço. Ele não existe no mundo, mas existe na compreensão do mundo. Fosse outro nosso planeta (Jupiter demora 11 anos e Saturno 29 anos para dar a volta no sol), seria outra nossa compreensão de tempo e mundo. Assim, o tempo é sujeição dos sentidos e pensamento a realidade material e espacial que nos envolve.
Já para outros teóricos filosóficos o tempo tem outras concepções. Para Santo Agostinho (354-430 d.c.) “o tempo é aquilo que escapa”; “é aquilo que sei, mas se me perguntar não sei”. O conceito é de que podemos experimentar o tempo, não dizer o que ele é. Tempo seria experiência eterna (sem tempo) existe na alma, pois não encontramos o tempo no mundo, projetamos o tempo no mundo. Assim o tempo é uma construção do intelecto que o projeta sobre o mundo para entender a transformação do próprio mundo. Sem o tempo não teríamos tempo para entender o tempo, como fazemos agora.
Outra reflexão que Santo Agostinho faz sobre o tempo na sua obra Confissões livro XI, é a do conceito de tempo como realidade sempre presente que se direciona pelo presente já vivido (presente do passado) e do presente por viver (presente do futuro). Então temos que o presente seja a percepção do que acontece no agora e o passado seja as lembranças em mim do presente que se passou e o futuro seja as expectativas/esperanças que tenho no presente de um presente que ainda não aconteceu. E viver é, equacionar esses tempos no ser para entender o próprio ser do ser. O tempo é, portanto, a distensão dos movimentos (de ir e vir) da alma humana. À vida é um tempo só, um agora: passado, presente e futuro são modulações de um presente absoluto: presente das coisas passadas, presente das coisas presentes, presente das coisas futuras. Como diz Santo Agostinho: “a memória reproduz não as coisas em si, já passadas (pois o tempo passado já não é), mas as palavras nascidas das imagens destas, que ao passar se fixaram na alma, mediante os sentidos, quais vestígios”. Só podemos prever o futuro a partir da lembrança presente das coisas passadas: são as imagens contidas na memória e não as coisas futuras elas próprias (que ainda não são) que me permitem prever o futuro. Porque o tempo existe no homem, e nunca fora do homem “Medimos as impressões que permanecem no espírito depois da passagem do tempo, e não as coisas que passam” Em Agostinho, o futuro sopra em direção ao passado em função de uma alma que age.
Outro filósofo que refletiu sobre o tema e nos deixou sua contribuição sobre o tempo foi Henri Bérgson (1859-1941), em sua concepção o que nós chamamos de tempo é o processo de transformação da realidade. O tempo é a transformação que percebemos no mundo e em nós, e assim se determina como sensório motor, visto que é uma combinação de sensações e movimentos, e por se apresentar assim ele se torna em nós como aquele em que as coisas/acontecimentos/realidades existem e depois não existem mais. Para Bérgson pensamos o tempo como existência ou existencial, visto que somos seres de memórias, somos uma formação de pensamentos em predominância no passado (memórias) de realidades vividas e ao mesmo tempo, ou a memória restante, projetamos pensamentos (memórias projetivas) sobre o futuro, assim a existência é repetir o bem do passado e evitar o mal do passado. Temos em nós mais passado do que presente, assim vivemos o presente e percebemos as coisas por memórias do passado, que se torna o fundamento do existir. Bérgson ainda nos dirá que a tecnologia acelerou a nossa percepção do tempo, a vida passa mais rápido (lembrando que o tempo é a percepção que temos da passagem de uma realidade para outra). E por fim, segundo ele, a consciência da transitoriedade da temporalidade de todas as coisas e de nós mesmos é aquilo que nos dignifica como ser. Aqui temos um aprendizado da filosofia contemporânea, em que a condição existencial do homem é definida por ele mesmo. Bérgson dirá que nessa percepção de temporalidade transitória temos “Liberdade para enfrentar o Destino” e definir em nós mesmos o desenrolar do tempo como uma coisa/acontecimento interno sobre nossa jurisdição.
Já Wilhelm Friedrich Nietzsche (1844-1900) tematizou sobre o tempo em uma temática mais prático existencial, Nietzsche era um filósofo vitalista (à vida é critério para viver à vida), ao escrever sobre “O mito do eterno retorno” que formulou a partir do pensamento estoico de que o universo é a repetição de todas as coisas (a realidade e todas as coisas nele sempre retornam) ele tematiza a vida como uma série sucessiva de repetição das mesmas coisas, mesmas realidades, mesmos acontecimentos. Por isso o tempo se apresenta como eternidade imanente a vida (o que é eterno não é a vida, nem o tempo, eterno são os instantes que se vive na vida), eterno retorno e método existencial de adequar à vida a si mesma enquanto se a vive. É saber o que apetece e viver pelo que apetece, em Assim falava Zarastruta, o profeta diz: “se apetecer esforçar, esforça-te; se apetecer repousar; repousa-te”.
 O tempo é aquele em que se vive, é um instante de vida que não acaba, a vida é o instante do tempo e o que se vive se vive eternamente. O eterno retorno é critério temporal de avaliação da vida que está na vida, a vida vira critério existencial de avaliação da própria vida. Por isso ele questionava seus interlocutores: você escolheu essa vida ou foi escolhido por ela, amou essa vida ou a lamentou? Segundo Nietzsche, na vida nada é apetecível em si, se é apetecível é apetecível no ser, apetecível no instante em que vive o instante. A plateia desse momento de vida é você sozinho (que assiste a si mesmo e suas pulsões existenciais), essa é a eternidade. O decisivo não é sua validade ou verdade enquanto teoria, mas sim, seu valor enquanto fórmula da mais alta afirmação da vida e como instrumento necessário de seleção da melhor das vidas. Seria preciso, então, viver cada momento de modo que se quisesse segui-lo, vivendo o infinitas vezes. A implicação mais importante da doutrina do eterno retorno, pois, é essa nova compreensão que representa o vínculo necessário entre o indivíduo e a totalidade da vida, ou seja, entre tempo subjetivo e tempo objetivo. Sentimos a eternidade da vida afirmando-se a si mesma no instante em que identificamo-nos com ela ao fazer dela instantes contínuos de realização da própria potência vital.
Afim de permitir a reflexão sobre o tempo como uma extensão existencial e continua, Nietzsche colocará na boca do profeta (Assim Falava Zarastruta) a seguinte proposição:

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?". A vida que vale a pena é aquela que se deseja que se repita inúmeras e inúmeras vezes nos instantes de vida, no tempo presente sempre existente, no tempo da alma, na possibilidade da potência de si despejada no mundo.   

domingo, 30 de abril de 2017

Cultura, o que é isso?

Cultura, o que é isso?
CULTURA do latim colere que tem o sentido de “cultivo de” que quando aplicado nas ciências sociais (sociologia, antropologia, psicologia social) pretende dar sentido a toda apreensão humana e aprendizagem social que obtém por meio de sua socialização, a partir de sua sociedade de pertencimento.
Nas artes a cultura se apresenta como o cultivo de valores, inspirações, expressões que por encontrar ressonância pessoal e cultural (transcendência valorativa) entre o artista e aquele que contempla sua obra. Na vida a cultura se apresenta como o cultivo de diversificadas expressões e organizações humanas, que podemos perceber nos grupos humanos, nas tribos indígenas ou urbanas (rock, punk, funk, mpb, sertanejo, gospel). Temos também a cultura como cultivo intelectual e cognitivo, que diz respeito aos saberes cultivados ou adquiridos pelo indivíduo. Termo que designa o possuidor de tal cultura como “culto” ou “pessoa com cultura”.
A palavra cultura tem como origem primaria o cultivo, a transformação da natureza, ou seja, tirar algo de seu estado natural para lhe dar uma significação, sentido, utilidade que não lhe são inerentes (lã/roupas, minério/metal, laranja/álcool, água/energia). A cultura aplicada a existência e convivência humana visa transformar a sua natureza. Ela, a cultura, tira o homem do que lhe é natural como natureza[1] e lhe possibilita transcender a si mesmo, sua animalidade, e transcender a todos que lhe antecederam culturalmente e evolutivamente. Adquirindo cultura, o homem passou a depender mais do aprendizado cultural do que a depender do agir através de atitudes geneticamente determinadas. O processo de aprendizagem determina o comportamento do homem/mulher e a sua capacidade artística ou profissional. A cultura é um processo acumulativo resultante de toda a experiência histórica, experiência geracional, experiência social. Esse processo cultural/histórico/geracional limita ou estimula a ação criativa/criadora do indivíduo. Vejamos alguns estudiosos da questão.
Aristóteles, que nunca usou o termo cultura, definia o homem como um zoon politikon (animal político), um animal que se humaniza na polis/política, que seria a ética no conviver para aprimoramento do viver.
Para John Locke a mente humana não é mais do que uma caixa vazia na ocasião de seu nascimento, está é dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento. Está ai a grande necessidade cultural.
Clifford Geertz alegoriza dizendo que somos Hardwares com softwares (projetados, programado) que são a forma e meio de entender/perceber o mundo. Aqui temos um tema de reflexão contemporânea, que é a de que a cultura virtual é transposta na cultura real, só que a cultura virtual seria um espelhamento da cultura real. Um post virá padrão e vira referência, um ato particular que viraliza e se torna expressão cultural, ainda que temporária.  
Benedict diz: “a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo”. Com ele podemos pensar a respeito do Etnocentrismo (percepção e projeção cultural centrada na própria cultura), que exige a aceitação da diversidade, compreender a diversidade cultural e respeitar as diferenças.
Boa Ventura de Sousa Santos aborda a cultura e a multiplicidade de multiculturalismo e questiona, também, a atitude etnocêntrica que é a imposição da cultura de um grupo sobre outra cultura seja na religião, grupos de skate, rap, funk, área acadêmica, economistas.
Temos até aqui que a cultura não é biológica (o homem é o único animal com cultura), que se faz como uma especificidade humana. Assim, não podemos falar de determinismo biológico de povos, tribos, gêneros ou etnias. O que podemos afirmar é que as culturas não são estáticas e sim dinâmicas, que a cultura é uma simultaneidade de relações aprendidas e repetidas que se refazem dinamicamente na continuidade dessas relações. Afirmar que a cultura é um grande mecanismo de produção de significados material ou imaterial. Que cultura é um termo aberto e em transição, que se define como não definível. E que é também, específica de um grupo, de um jeito de viver econômico e educacional, que se subdivide em Cultura elite Cultural popular. Podemos falar que julgar, avaliar e inferiorizar uma cultura (etnocentrismo) qualquer não é coerente, visto que as culturas são uma construção sócio relacional em uma condição sócio existencial que não pode ser julgada, analisada, entendida com as lentes de uma outra cultura. Falar que temos aqui uma primeira abordagem sobre o tema cultura, que nos ajudará no caminho/processo de compreensão do mundo e de nós mesmos nele.
 O ser humano pode ajustar-se a um número maior de ambientes do que qualquer outra criatura, multiplicar-se infinitamente mais depressa do que qualquer mamífero superior, e derrotar o urso polar, a lebre, o gavião e o tigre, em seus recursos especiais. Pelo controle do fogo e pela habilidade de fazer roupas e casas, o homem pode viver, e vive e viceja, desde os polos da Terra até o equador. Nos trens e automóveis que constrói, pode superar a mais rápida lebre ou avestruz. Nos aviões e foguetes pode subir mais alto do que a águia, e, com os telescópios, ver mais longe do que o gavião. Com armas de fogo pode derrubar animais que nenhum tigre ousaria atacar. Mas fogo, roupas, casas, trens, automóveis, aviões, telescópios e armas de fogo não são parte do corpo do homem. Eles não são herdados no sentido biológico. O conhecimento necessário para sua produção e uso é parte do nosso legado social. Resulta de uma tradição acumulada por muitas gerações e transmitida, não pelo sangue, mas através da linguagem (fala e escrita). A compensação que o homem tem pelos seus dotes corporais relativamente pobres é o cérebro grande e complexo, centro de um extenso e delicado sistema nervoso, que lhe permite desenvolver sua própria cultura. (G. CHILDE. A evolução do homem. P.40 – 41).
Assim concluímos que: “Cultura é um adestramento fisiológico, biológico, neural e cognitivo a determinadas determinantes sócio estruturais estruturadas e estruturantes do ser que se perfazem nele na relação com o mundo”.




[1] Lembrando de Rosseau, “Gato é Gato”, o homem não tem instinto humano  e assim precisa desenvolver uma “tecnologia” adaptativa para viver e evolutiva para melhorar o viver.

domingo, 23 de abril de 2017

Consciência, Alienação e Ideologia

Consciência, Alienação e Ideologia
Consciência
As possibilidades do pensar humano são gigantescas e não encontraram ainda as suas limitações em nossos conhecimentos e pesquisas. Para a sociologia, ela se inicia e acontece em uma realidade específica, que a molda e a condiciona. A consciência (o pensamento) é a maneira estrutural em que se condiciona as potencialidades do pensamento. O pensamento por sua vez está condicionado as estruturas sociais, e assim, a consciência humana é consciência social. Vejamos isso na estrutura social dos três principais sociólogos.
Para Émile Durkheim (1858-1917) a sociedade é o resultado da combinação de consciências individuais que se perfazem em uma consciência coletiva, essa consciência coletiva ou coletivizada, se torna fato social sobre os indivíduos que dela participam.
Para Karl Marx (1818-1883) a existência é social, mas é também econômica, e assim, a condição sócio econômica é determinadora da consciência, assim, a consciência se faz como consciência de classe. A consciência de um indivíduo de classe dominante (burguês) será diferente e oposta da consciência daquele que pertença a classe dominada (proletário).
Para Max Weber (1864-1920) a consciência é social e performática (formatada), se amolda as estruturas sociais vigentes, e mais influentes. E assim, temos que essa consciência possa ter uma predominância referencial (religiosa, política, econômica, esportista, acadêmica, por faixa etária), porém é também uma mistura de todas essas áreas, ela é uma consciência interligada em múltiplas áreas cognitivas. Para Weber o pensamento é a junção, a significação dessas áreas no indivíduo, se estabelecendo como formação social que será analisada por Max Weber como ação social (motivação da ação do indivíduo), que é de onde parte sua análise, estudo e entendimento da sociedade.

Alienação
Alienação é um termo derivado da palavra alienus= de fora, do outro. Alienação é uma forma de ver, pertencer, entender a realidade com a influência ou consciência do outro. É a formação em um indivíduo[DR1]  da consciência de outra pessoa ou grupo. Essa alienação é melhor compreendida em categorias.
Alienação Social=> nela o indivíduo não se reconhece como produtor e integrante das realidades e instituições sociais e políticas que participa, como por exemplo, análise política sem responsabilização, análise escolar sem auto inclusão, análise familiar sem responsabilidade, e outros.
Alienação Econômica=> a aceitação é a aceitação da condição e situação econômica como natural, normal e inevitável. Jean Jacques Rosseau dirá que o homem em lugar nenhum surgiu envolto em sociedades desiguais, se se tornou foi porque assim o fez e assim o permitiu, que não é um condicionamento natural.
Para Karl Marx a alienação acontece em etapas. 1º O trabalhador ao vender sua força de trabalho para o proprietário do capital (burguês) se torna uma mercadoria para este, mercadoria que produz mercadorias. 2º O trabalhador, enquanto classe social, não percebe que a excelência do que produz com seu trabalho não lhe está acessível, elas (mercadoria) valem muitos mais do que o salário que lhe é pago pelo trabalho, ou seja, o que ele produz vale mais do que ele como pessoa. 3º O trabalhador perde enquanto produtor controle e conhecimento sobre a sua própria produção, ficando alienado daquilo que faz, ficando alienado de si mesmo enquanto trabalhador. Já não é mais um produtor de nada em especifico
Alienação Intelectual=> resulta da crença comum de que o trabalho intelectual é mais valioso que o trabalho material. Está alienação resulta da separação entre o trabalho material e o trabalho intelectual, segregando o trabalho do primeiro do trabalho do segundo. Ignora-se que o trabalho intelectual (planejamento, orçamento, planilha, recursos humanos) é determinado pelo trabalho material, é o trabalho material quem produz o trabalho intelectual, e que o próprio processo laborioso do trabalho material está condicionado a realização de um trabalho intelectual prévio por aquele que o executa.

Ideologia
No plano social, as ideologias são concebidas como valores e ideias que legitimam e mantém o status quo. Na formação e composição social de uma dada sociedade são estabelecidas pelo convívio, a existência/convivência é a base, formas, regras e normas de se conviver que ganharão independência da convivência e que passarão a determinar a convivência sem ter a convivência como base. Está será uma convivência ideal, está será um conjunto de ideais determinadores de como conviver, que não mais depende da convivência para isso. Aqui é preciso pensar que a realidade estabelecida é defendida por alguém que se beneficie em que ela se mantenha como está, visto que se favorece com isso. Assim, criam-se instituições, organizações, sistemas educacionais e ideológicos (mídia) defensores da realidade como é para que não haja interesse em transformar a mesma.
Um fator fundamental no conceito de ideologia é o de que ela precisa ocultar o real para suplantar sobre o mesmo a si mesma (Marilena Chauí). A Ideologia obscurece a consciência daqueles que dela participam para que não percebam sua dominação, subjugação e exploração. Para desacreditar que a realidade poderia ser diferente, ou desacreditar que poderia ser melhor.
Ideologia, como o nome sugere, é o estudo das ideias que compõem uma dada realidade social/existencial, e que como toda realidade humana é composta pelo pensar humano objetivado e objetivante, ou seja, é composta por realidades e vivências humanamente estabelecidas.
No sentido mais amplo, e comumente empregado, ela significa um conjunto de ideias. No outro sentido, marxista, ideologia é alienação da consciência de uma classe por outra classe. O pensamento dos dominantes (burgueses) presente e legitimado na consciência dos dominados (proletários), que validam seu agir e existir segundo eles (burgueses).

Resumindo: a consciência é consciência social, estabelecida a partir das realidades sociais de existências e suas variantes culturais, como economia, religião, educação e outros. A alienação é a ideologia de uma estrutura de pensamento sobre outra estrutura de pensamento, ou seja, ideias que determinam o viver sem levar em conta o próprio viver daquele que assimila a ideologia (Escola pública e Enem). Por outro lado a alienação é a exclusão do ser daquilo que realiza enquanto ser, seja ela uma alienação social, profissional ou intelectual. As ciências sociais visam com essas três esferas do saber (consciência, alienação e ideologia) apresentar sociologicamente a origem do saber, sua aplicação, objetivação e destinos. Haverá quem faça dessas esferas sua base sociológica de entender o mundo e de buscar transformar o mundo. Nossa objetivação é de que fique compreensível a formação da formação da consciência social que se torna organizacional para legitimar os modelos formados a partir da convivência. 


sábado, 8 de abril de 2017

Alteridade e Convivência – Emmanuel Levinas

Alteridade e Convivência – Emmanuel Levinas

Emmanuel Levinas foi um filósofo francês de família judaica, que caracteriza suas obras numa perspectiva fenomenológica, que é primeiramente uma descrição dos atos do espirito, sua intencionalidade, afeição e sensibilidade; e em segundo é uma reflexão a partir do indivíduo. A partir dessas duas estruturas desenvolve sua concepção ética, que é comprometida com o permanente reconhecimento do outro.
Aqui Levinas irá inverter uma máxima maquiavelista tão comum na ética capitalista de nossos dias, que é a de que “os fins justificam os meios”, ou seja, o resultado pretendido é o que importa nas relações que são estabelecidas. Para Levinas os fins não justificam os meios, visto que o outro é fundamental para constituição do si mesmo. O outro é constituinte do eu, a formação de um se dá através do outro (o rosto do outro sempre pede uma resposta). Se a formação do eu se dá na relação direta ou indireta com o outro, esse outro é gerador no eu do infinito de si. A existência é a necessidade do infinito, a necessidade do outro, a identificação que tenho de mim na relação com o outro, e que faz com que sejamos incompletos, já que por mais que eu seja satisfatório em mim, está no outro a real satisfação, ou a satisfação ainda maior de mim mesmo. Assim temos que “o desejo pelo infinito se realiza no outro em retroação consigo e com o outro”. É o desejo do infinito, dirá Levinas, pois quando uma convivência é boa nos faz querer mais, e isso infinitamente. Aqui então temos uma primeira definição de alteridade, que é alimentar o desejo do infinito na relação com o outro. A complexidade da descrição de si na música “Infinito Particular” da Marisa Montes, é reveladora desse infinito relacional. Compreender a outra pessoa é tomar para si aquilo que é ela, ou dela. E a alteridade é essa ação compreensiva do outro no eu sem eliminar o seu tu.
Essas concepções Levinianas nos levarão necessária a nos perguntar e definir as duas perguntas históricas: “O que é o ser?” Se somos o infinito em formação na alteridade, ou seja, o infinito que se perfaz em infinito, e a outra “O que é a verdade?” Ora, se a compreensão de si e do outro são temporárias, já que o eu e o outro são uma permanente construção relacional (conceito que tem referência direta em Heráclito no conceito sobre o ser que é ser ao não ser, mobilismo existencial), a compreensão do mundo também o será, e as concepções de verdades (oposição a uma só Verdade) também serão. A filosofia é, nestes termos, a busca das verdades, a busca das exterioridades reveladoras das condicionantes existenciais e relacionais. Agora objetiva-se relacionar se concretamente com o que está além do eu, exterior, fora de seu controle, de sua posse, sob a qual o eu não tem domínio nenhum. 
Aqui surge uma indagação: como compreender o outro sendo o eu um outro, e ao mesmo tempo sabendo do desejo infinito constituinte dessa relação? Levinas dirá que para refletir sobre o outro não é possível cometer o erro de se colocar no lugar do outro, exatamente por ser o outro um outro que não pode ser compreendido em si, ele precisa ser respeitado em si, compreendido em si, aceito em si. O outro não pode ser um outro em mim, precisa ter seu espaço existencial respeitado para que possa ser esse outro que me permite na alteridade ser eu.
Aqui Emmanuel Levinas faz uma crítica feroz ao modo de produção capitalista, com referências diretas a Industria Cultural, pois nessas concepções contemporâneas o outro é um obstáculo do eu, um empecilho para si, um adversário na construção pessoal. Para Levinas, Alteridade é respeito ao outro como outro, e a busca da construção de um eu que se faz só na subjugação do eu-outro, não pode ser um eu autêntico, visto que está negando a si o único meio saudável de se ser um ser, um eu expansivo e infinito. 
Vale aqui lembrar que o conceito da subjetividade como fundamento da realidade perpassa toda a modernidade. Essa lógica capitalista ou industrial quebra o conceito da compreensão do outro como ser para torna-lo uma coisa, um objeto quantificável e descritível. Aqui temos um conceito que representa essa ideia, o que ele chama de “Filicídio” que é o nome do pai no filho. Uma tentativa de extensão do eu do pai no eu do filho. 
A proposta de Emmanuel Levinas é de uma nova relação ética entre o ser e o externo ao ser, para que aconteça uma relação entre ser e ser, e não ser e coisa. Aqui acontece uma diferenciação e junção nos conceitos de ética que seriam entre êthos e éthos. O primeiro Êthos é concebido como a morada do ser, a personalidade e os hábitos; já o Éthos é entendido como costume social, aquilo que se faz no convívio social. Assim, a ética da alteridade é viver a alteridade tanto quanto aos costumes quanto no valor e significado que damos as coisas no privado. O sentido e propósito da unificação ética é a preservação da morte e a luta pela vida para o maior número possível, aqui temos uma junção da alteridade com o pensamento utilitarista[1]
A ética se amplia para uma contextualização do ser com o outro e  os outros no todo que se impõe e nos compõem, porque fora da alteridade eu me fetichizo, me sacralizo e torno possível a utilização do outro para o meu querer, para o meu prazer. Um exemplo contemporâneo é o “ficar”, sem comprometimento ou envolvimento afetivo. O anti-fetichismo pessoal e político é abrir se ao outro para se abrir ao infinito somente possível na relação altera com o outro. A ética altera se politiza (a política é necessária), pois para uma existência ser ética precisa ser política no micro e no macro (sabendo que o macro define o micro – o preço da farinha, por exemplo). A dialética da alteridade levada ao termos irá considerar a condição indivíduo a partir dele e não de um esquema social, por exemplo, a ajuda para um morador de rua não é necessariamente o seu retorno social,                                                                                                                                      aquilo que se considera o padrão.
Para que possamos encerrar nossa textualização dos conceitos centrais de Emmanuel Levinas, uma última proposição é a de bem comum, que segundo ele só pode acontecer na alteridade, só podemos estabelecer o que é bom para o coletivo estabelecendo a alteridade entre ele, para que na compreensão e aceitação do outro se estabelece os parâmetros para o si mesmo em busca do bem comum para todos. Está atitude se torna compreensível quando se entende que o ser humano se define e se constrói historicamente, e é historicamente que precisa definir sua convivência. E a alteridade, o passo necessário, é em nossos tempos o caminho necessário para que possamos construir a melhor convivência possível (existência do infinito) em uma sociedade tão avessa ao cuidado com o outro, e tão avessa em se abrir para outro para conviver e assim existir no melhor possível de si, que é a infinitude relacional como limite. O eu e o outro em conjugação produzem uma existência tão plena quanto ilimitada na elaboração continua de eus e outros na constante experiência de se transcender como ser.



[1] Teoria desenvolvida na filosofia liberal inglesa, que considera a boa ação ou a boa regra de conduta caracterizáveis pela utilidade e pelo prazer que podem proporcionar a um indivíduo e, em extensão, à coletividade.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Empirismo: a experiência do conhecimento pela experiência

Empirismo: a experiência do conhecimento pela experiência

Para René Descartes o conhecimento é algo que acontece a partir do próprio ser, mesmo não havendo de fato um ser, o desenvolvimento do conhecimento e da verdade se dá a partir do cogito (da dúvida) e com ela como amparo (método cartesiano) busca se fugir dos enganos comprovados na construção do conhecimento, sendo a dúvida e o método, fundamentado no cogito a fonte do saber e da verdade. A teoria alternativa, contraditória e contemporânea de Descartes nessa mesma busca é a do Empirismo, Francis bacon (1561-1626) tem nos sentidos, a priori rejeitados por Descartes, a fonte primordial do saber. Teremos a partir de então toda uma construção filosófica de busca de comprovação e fundamentação dessa proposta, passando por John Locke, Thomas Hobbes e David Hume, até que em Emmanuel Kant esse processo de conhecimento e aprendizagem ganhe novos contornos.
O Empirismo consiste em uma teoria epistemológica que indica que todo o conhecimento é um fruto da experiência, e por isso, uma consequência dos sentidos. A experiência estabelece o valor, a origem e os limites do conhecimento. Diferentemente das teorias das ideias a priori (inatismo), os filósofos empiristas postulavam que nossas ideias derivam da percepção de nossos sentidos, e que por isso se formam pela experiência. O que acontece aqui é que a sensibilidade, que para os racionalistas (como Platão, Descartes, Espinosa) ocultava a realidade, para os empiristas (bacon, Locke, Hobbes, Hume) era o meio de revelá-las. Algo surge em comum aqui, tanto para os empiristas como para os racionalistas, o conhecimento não é mais algo que de fora se espelha em nós, mas é uma operação construída por nossa mente ou por nossos sentidos. E nessas possibilidades de saber, a Filosofia Moderna, está determinando que conhecemos apenas o que pode ser percebido pelo sujeito, como as coisas se manifestam na consciência ou sentido. Para Francis Bacon, o saber não é mais contemplação e fruição espiritual, mas uma atividade prática, ativa, intencionada para a busca do poder (saber é poder) sobre a natureza “o conhecimento deve ser obtido para gerar controle sobre a natureza”. Não importa mais conhecer o mundo, é preciso agora dominá-lo, e para isoo é fundamental que se estabeleça novos métodos de estudo e compreensão da realidade, o que ele denomina de novo organon, em contraposição ao orgnanon aristotélico que se apoiava na dedução para desvelamento da verdade. O método Baconiano é o da indução (experiência – observação – regularidade – análise – generalização) que para ser efetivo precisa se livrar dos ídolos (da tribo, da caverna, do foro e do teatro). Para Thomas Hobbes (1588-1679) alinhado com Bacon e em contrariedade com Descartes, toda representação da realidade é o resultado dos efeitos que os corpos provocam sobre nossos sentidos. Ele desenvolve um conceito muito interessante como o de que os “nomes” que nós utilizamos para nos comunicar com as coisas e a respeito das coisas, não são substâncias e não manifestam a natureza íntima das coisas, são antes, sinais dos pensamentos que temos e instrumentos de comunicação sobre esses pensamentos.
John Locke (1632-1704), também empirista, escreve o livro Ensaios sobre o Entendimento Humano, e nele desenvolve o conceito de que a mente não é uma substância pensante e que não possui ideias inatas, ela é como uma tabula rasa (folha em branco) nas quais os objetos e experiências deixam suas impressões, registram sua imagem, formando as ideias a partir da realidade concreta. As ideias são objeto do intelecto, mas são um instrumento para o desenvolvimento e significação da realidade. A metafisica segundo Locke é entulho, visto que tem “existência” mas não tem utilidade, já que não tem materialidade e se torna uma decorrência de ideias sem objeto, pensamento sem corpo. Na produção do conhecimento a realidade nos apresenta duas condicionantes no processo do saber, que são as impressões e interpretações. A primeira é a marca deixada naquele que experimenta, um saber adquirido na experiência, e a segundo é as interpretações que são dadas ao processo de experimentação, que é em si um processo de acumulação de um novo saber a partir de outros saberes já experimentados e interpretados. Em David Hume (1711-1776) temos que todo o conhecimento tem origem na experiência, sendo os dados ou impressões sensíveis as suas unidades básicas. Hume defende que existem impressões e ideias que se distinguem quanto ao grau de força e vivacidade. Assim, as impressões são percepções vivas e mais fortes do que as ideias que são percepções fracas ou menos vivas. Como empirista, ele rejeita a existência das ideias inatas porque as ideias sucedem-se às impressões. “As impressões são as causas das nossas ideias e não as nossas ideias das nossas impressões”. Todas as nossas ideias derivam de uma impressão sensível. A toda e qualquer ideia tem de corresponder uma impressão porque as ideias são imagens/cópias das impressões. No Empirismo de Hume as experiências que temos são determinadoras dos pensamentos e sentimentos, o choque de corpos é produtor de conhecimento. Na verdade o escocês David Hume radicaliza ainda mais a filosofia empirista pensada por Bacon, Hobbes e Locke. Alinhando se com Locke, Hume combate as teorias das ideias inatas e mostra que as percepções da mente se dividem em duas formas, que são impressões e ideias, sendo as impressões percepções mais fortes e que tem em si não apenas as sensações externas, mas também as internas (sentimentos, paixões, desejos), e as ideias por seu mérito são uma resultante da impressão, que a medida que se distanciam da experiência perdem a força. Assim, as ideias não pertencem a experiência, mas são a resultante das mesmas, aquilo que fica. E nessa perspectiva, David Hume irá elaborar uma reelaboração dos conceitos do processo de conhecimento empírico. O que nós captamos é uma série de fluxos de impressões e ideias, esse fluxo apresenta frequência e regularidade, e essas frequências e regularidades criam as percepções que se apresentam a nós, que acabamos por imaginar a existência de um princípio que estaria na base da coesão daquelas percepções frequentes e regulares. Na epistemologia de Hume, qualquer certeza desaparece diante das percepções, impressões e ideias. O sujeito deixa de ser um pressuposto evidente e se torna uma imagem passageira, um nome que pode ser substituído por outro sem alteração. A impressão/crença que temos na existência das coisas como imutáveis e organizadas é fruto de uma imaginação/pensamento que precisa colocar uma determinada ordem no mundo para se orientar e viver nele com estabilidade. Ele estabelecerá a impossibilidade de conhecer a substância/essência das coisas visto que a experiência com as mesmas não viabiliza tal percepção. As proposições principais de Hume sobre os limites da ciência são: Tempo e Nitidez=> que é ação do tempo sobre o efeito dos efeitos deixados pela experiência no ser (lembrando que para Hume não há eu). A medida que o tempo passa a experiência e o conhecimento advindo da mesma se torna tanto quanto menos eficaz e eficiente. Percepções Particulares=> as coisas são percebidas nas suas particularidades, sejam árvores, bananas, pedras. Elas ganham significações particulares, mesmo que similares as de outros, e também essas percepções particulares acabam gerando generalizações (ideias similares sobre as coisas particulares). É aqui Hume também alerta, ao contrário de Bacon, que não há como ignorar a subjetividade nesse processo cognoscível. Relação com as Palavras=> há uma complicação no processo epistemológico devido a imperiosa necessidade do uso das palavras para descrever as experiências. As palavras são meio termo para descrever as experiências. Eu tenho uma experiência de chuva que é uma coisa, e eu preciso descrever a experiência até mesmo para perceber a experiência, e nesse processo de descrição da experiência eu saio da experiência para falar da experiência, e acabo por ter dois momentos da experiência, o que ela é em si e como eu a descrevo representativamente em mim. O Problema da Causalidade=> porque observarmos que o evento (A) tem sido sempre, até ao presente, sucedido pelo evento (B), acreditamos que da próxima vez que ocorrer (A) sucederá (B), e desta forma inferimos uma relação necessária entre causa e efeito pelo fato de nos termos habituado a constatar uma relação constante entre fatos semelhantes ou sucessivos. Só que é apenas o hábito ou costume que nos permite sair daquilo que está imediatamente presente na experiência em direção ao futuro. A ideia de relação causal, de uma conexão necessária entre dois fenómenos (“sempre foi assim, sempre será assim”), é uma ideia da qual não temos qualquer certeza sensível. Como o critério do estabelecimento de uma verdade de um conhecimento factual é o acontecimento desse conhecimento factual e o mesmo por mais que já tenha acontecido no passado não aconteceu ainda no futuro, não temos legitimidade para falar de uma relação causal entre dados da nossa experiência. O futuro é uma inferência causal condicionada as experiências do passado, em outras palavras, não podemos empiricamente projetar o futuro pelo passado. O princípio de causalidade, considerado um princípio racional e objetivo, nada mais é do que uma crença subjetiva, um produto de um hábito, o desejo de transformação de uma expectativa em realidade. A causalidade é a conjunção constante da experiência de causa e efeito. A Negação Metafisica=> a metafisica não tem lugar físico na epistemologia humana, dado a composição corporal e suas possibilidades (fosse outro tipo de corpos, com outros instrumentos sensoriais seria outra história), e também pela impossibilidade da metafisica criar verdades. Por exemplo, a matemática não é capaz de proporcionar métodos de descoberta de verdades, a matemática é simbólica, representação de realidades empíricas como as fórmulas, a exemplo da fórmula do cálculo de energia e=m.v, contudo a correta elaboração matemática não produz nenhuma realidade a partir de si. Outro exemplo, o nascimento do Sol amanhã, posso matematicamente explicar e expressar esse acontecimento que já ocorreu milhões e milhões de vezes, mas não posso comprovar matematicamente que acontecerá outra vez. Lembrando Hume, a repetição dos fenômenos nos leva a inferir uma naturalidade causal para os fenômenos, principalmente da natureza.
Os filósofos empiristas são de uma importância sem tamanho na história do pensamento humano e, no desenvolvimento histórico humano em todas as esferas que se for possível pensar. É aqui no empirismo, análise e compreensão do mundo partindo do próprio mundo, que teremos um dos mais significativos acontecimentos da história, a invenção da ciência, que irá revolucionar a existência do homem em todas as esferas existentes até chegar em nós, herdeiros desse processo, que nos utilizamos de todo esse processo, toda essa forma de pensar e saber, mesmo sem ela conhecer. Isso só comprova a força dessa teoria e como ela é fundamental para o desenvolvimento da teoria subsequente a ela, a construtivista, que está, esta sim, encarnada em nós, presente em nossa concepção de conhecimento, tanto que na leitura do empirismo aqui apresentado tivemos divergências epistemológicas por estarmos habituados a uma outra estrutura cognoscitiva. Logo mais abordaremos Emmanuel Kant e as novas estruturas do conhecer e do pensar o pensar.